terça-feira, 8 de fevereiro de 2011

Sobre a Remonstrância.



Trecho do livro Graça, Fé, Livre-arbítrio. De Robert E. Picirilli.

Conseqüentemente, em 1610, com as tensões ainda em crescimento, os seguidores de Arminius apresentaram uma petição aos Estados, chamado de “Remonstrância” (por isso que aqueles que a apoiaram foram chamados “Remonstrantes” e os calvinistas que se opuseram “Contra-Remonstrantes”). Entre os líderes do lado arminiano estavam Uitenbogaert, um estudioso chamado Simon Episcopius, e um advogado influente chamado Hugo Grotius; Oldenbarnevelt deu apoio a eles.

A Remonstrância expressou os principais pontos dos arminianos sucintamente em cinco artigos. Estes são como segue:

Art. 1. Que Deus, por um eterno e imutável plano em Jesus Cristo, seu Filho, antes que fossem postos os fundamentos do mundo, determinou salvar, de entre a raça humana que tinha caído no pecado – em Cristo, por causa de Cristo e através de Cristo – aqueles que, pela graça do Santo Espírito, crerem neste seu Filho e que, pela mesma graça, perseverarem na mesma fé e obediência de fé até o fim; e, por outro lado, deixar sob o pecado e a ira os costumazes e descrentes, condenando-os como alheios a Cristo.

Este artigo apresenta o ponto principal em debate. Ele aceita a predestinação como incluindo tanto a eleição para salvação quanto a reprovação para condenação. Mas ele coloca ambos os decretos após a queda voluntária (não necessária) do homem no pecado, e faz ambos os decretos condicionais à respectiva fé ou incredulidade dos indivíduos que são os objetos da eleição ou reprovação. Este está em oposição à concepção calvinista da eleição incondicional.

Art. 2. Que, em concordância com isso, Jesus Cristo, o Salvador do mundo, morreu por todos e cada um dos homens, de modo que obteve para todos, por sua morte na cruz, reconciliação e remissão dos pecados; contudo, de tal modo que ninguém é participante desta remissão senão os crentes.

Este artigo enfatiza a expiação ilimitada ou universal, e todavia deixa claro que nem todos são na verdade salvos por esta expiação; somente os crentes experimentam seus efeitos redentores. Isto se opõe à concepção calvinista de que a expiação proveu redenção somente aos eleitos.

Art. 3. Que o homem não possui por si mesmo graça salvadora, nem as obras de sua própria vontade, de modo que, em seu estado de apostasia e pecado, para si mesmo e por si mesmo, não pode pensar nada que seja bom – nada, a saber, que seja verdadeiramente bom, tal como a fé que salva antes de qualquer outra coisa. Mas que é necessário que, por Deus em Cristo e através de seu Santo Espírito, seja gerado de novo e renovado em entendimento, afeições e vontade e em todas as suas faculdades, para que seja capacitado a entender, pensar, querer e praticar o que é verdadeiramente bom.

Este artigo enfatiza que tudo envolvido tanto na salvação como na vida cristã é pela graça de Deus. Nem mesmo o livre-arbítrio do homem pode iniciar uma resposta positiva a Deus à parte da graça capacitante. Assim até a fé salvadora não é efetuada pelo homem “de si mesmo.” Os arminianos foram sempre acusados de atribuir muito ao homem e então depreciar a graça. Este artigo tinha o propósito de anular essa falsa acusação e mostrar que eles estavam de acordo com seus oponentes ao atribuir todo o bem à graça de Deus.

Art. 4. Que esta graça de Deus é o começo, a continuação e o fim de todo o bem; de modo que nem mesmo o homem regenerado pode pensar, querer ou praticar qualquer bem, nem resistir a qualquer tentação para o mal sem a graça precedente (ou preveniente) que desperta, assiste e coopera. De modo que todas as obras boas e todos os movimentos para o bem, que podem ser concebidos em pensamento, devem ser atribuídos à graça de Deus em Cristo. Mas, quanto ao modo de operação, a graça não é irresistível, porque está escrito de muitos que eles resistiram ao Espírito Santo.

O quarto artigo continua a ênfase do terceiro, mas acrescenta uma importante qualificação: a graça de Deus opera de tal modo que o homem pode de forma sucedida resisti-la. Ninguém é superada por ela, a liberdade do homem não é tirada por sua operação. Isto foi para opor a concepção calvinista de que a graça salvadora é irresistível.

Art. 5. Que aqueles que são enxertados em Cristo por uma verdadeira fé, e que assim foram feitos participantes de seu vivificante Espírito, são abundantemente dotados de poder para lutar contra Satã, o pecado, o mundo e sua própria carne, e de ganhar a vitória; sempre – bem entendido – com o auxílio da graça do Espírito Santo, com a assistência de Jesus Cristo em todas as suas tentações, através de seu Espírito; o qual estende para eles suas mãos e (tão somente sob a condição de que eles estejam preparados para a luta, que peçam seu auxílio e não deixar de ajudar-se a si mesmos) os impele e sustenta, de modo que, por nenhum engano ou violência de Satã, sejam transviados ou tirados das mãos de Cristo. Mas quanto à questão se eles não são capazes de, por preguiça e negligência, esquecer o início de sua vida em Cristo e de novamente abraçar o presente mundo, de modo a se afastarem da santa doutrina que uma vez lhes foi entregue, de perder a sua boa consciência e de negligenciar a graça – isto deve ser assunto de uma pesquisa mais acurada nas Santas Escrituras antes que possamos ensiná-lo com inteira segurança.[21]

Este artigo final é o maior. Ele mostra que os primeiros arminianos, embora não tinham completamente se decidido, estavam abertos à opinião de que alguém pode ser perdido após ter sido salvo. Esta não foi uma das questões chaves na controvérsia, embora ela tenha sido levantada. A declaração representa um sentimento cauteloso e prematuro sobre o assunto. Posteriormente os arminianos viriam a expressar esta opinião sem tal hesitação, se colocando em oposição à crença calvinista na necessária perseverança.



MINHAS CONCLUSÕES EM SUSCINTAS PALAVRAS:

Art. 1º - Concordo plenamente.
Art. 2º - Concordo “em gênero número e grau!”
Art. 3º - Creio que o “livre-arbítrio” não pode ser interpretado como um “mal-arbítrio”, ou seja, como uma incapacidade de se pensar qualquer tipo de bem. Se assim o fosse, filhos incrédulos ao evangelho não pensariam bem de seus pais.
Art. 4º - Somente os bens praticados que forem persuadidos pelo Espírito Santo. Exemplo: se alguém grita com você, você pode: a) não revidar pois simplesmente acha desnecessário (sabedoria humanista); ou b) não revidar, pois essa não seria uma atitude praticada por Jesus, se estivesse em seu lugar (sabedoria divina). Se diante da circunstância a sua opção for “b”, podemos dizer que foi ação do Espírito Santo que “convenceu do mal”. Portanto, nem todas as obras boas e todos os movimentos para o bem, que podem ser concebidos em pensamento, são atribuídas à graça de Deus em Cristo.
Art. 5º - concordo quanto à primeira parte. Quanto à última parte do artigo, é bem verdade que há trechos na bíblia que nos direcionam à doutrina da “perda da salvação” (ver Apóstolo João 15.6). Mas prefiro as outras palavras de Jesus quando diz: “Todo aquele que o Pai me dá, esse virá a mim; e o que vem a mim, de modo nenhum o lançarei fora” (João 6.37).

sexta-feira, 7 de janeiro de 2011

Tornar-se si mesmo



Por Dulce Critelli (Carta Capital, 22 de novembro de 2010 às 9:44h)

Não somos lançados no jogo da vida de mãos vazias nem totalmente em aberto. Nossa primeira identidade nos é dada pelos outros.



Felipe tem quatro anos. Quando ele nasceu, seu pai tinha 19 anos e sua mãe 18. Ambos de classe média, começando sua formação universitária, estavam namorando há uns dois meses quando descobriram que ela engravidara. Românticos, talvez, decidiram se casar.

As famílias levaram um susto. O casamento e a gravidez eram fora de hora, mas entendiam que para os dias de hoje a situação era completamente natural. O casal passou a morar com os pais da moça e Felipe nasceu logo depois. Ele era lindo e seus pais o amaram. Todos o amaram.

O pai e a mãe de Felipe, sem trabalho, continuaram a viver como filhos de seus pais. Achavam isso supernatural. E os avós de Felipe, também achavam supernatural continuar a bancar a vida dos filhos e, agora, também o neto, que os enchia de alegria.

Os pais de Felipe queriam ser independentes, que ninguém desse palpite nas suas vidas nem na educação do Felipe. Com relutância, começaram a buscar emprego. Sem qualificação suficiente para o mercado de trabalho, ganhavam mal. E se cansavam, porque não estavam acostumados a ajudar a prover a vida nem a cuidar senão de si mesmos.

Felipe tinha pouco mais de 1 ano quando os pais se separaram, e logo arrumaram outros namorados. Depois outros, e mais outros. A mãe do Felipe foi morar sozinha, num apartamento pequeno que os pais dela alugaram e o pai do Felipe continuou a morar na casa em que sempre viveu com o pai e a mãe.

Os dois trabalhavam e estudavam e namoravam e queriam se divertir. Felipe ficava uma vez com o pai, outra com a mãe, outra com os avós maternos, outra com os paternos, outra ainda com algum amigo do pai, ou da mãe. Nunca numa ordem certa, era sempre com quem estava disponível. Depois que aprendeu a falar, Felipe sempre perguntava, aflito, para a pessoa com quem estava no momento: “Onde eu vou dormir hoje?”

Felipe não tinha horário para dormir ou acordar, ou para comer. Frequentava todos os lugares que seus pais frequentavam. Seus horários ficavam determinados pelos horários da casa em que estivesse. Comia da comida da casa em que estivesse, brincava com os brinquedos que havia – se haviam – na casa em que estivesse… Às vezes, ficava sozinho na escolinha por horas, porque os pais se esqueciam dele.

Os pais de Felipe o amavam, mas não reconheciam a necessidade de se dedicarem a ele. Quando lhes diziam que essa era sua obrigação, respondiam que gostavam muito do filho, mas que eles eram jovens e o filho não poderia impedi-los de viver a vida.
A mãe do Felipe encontrou um parceiro mais fixo que também tinha dois filhos, vindos de dois outros casamentos anteriores. Um dia, o Felipe estava com seu pai e chamou o namorado da mãe de pai. O pai do Felipe não gostou.

Felipe, doce que era, começou a ficar mais agressivo e batia nos companheiros da escolinha. A mãe do Felipe foi estudar no exterior e o Felipe, que já tinha dispensado as fraldas, voltou a precisar delas e da chupeta. A mãe não gostou, mas só começou a pensar que podia estar fazendo algo errado, quando alguém perguntou para o Felipe quem era sua mãe e ele apontou para a avó.

A mãe do Felipe mudou muito. E seu pai também faz muitos esforços. O Felipe, hoje, fica mesmo é com a mãe, tem seu lugar, seus horários, suas referências próprias… seu mundinho. Ele está mais feliz e está se encontrando.

A história do Felipe me faz pensar em várias coisas, mas quero tratar apenas de uma, relativa às condições necessárias para a construção da identidade pessoal.

Quando um ser humano nasce, uma novidade vem ao mundo. Nunca ninguém antes de nós, nem depois de nós, será igual a nós. O mistério da humanidade é sua singularidade. Esta singularidade, porém, não vem pronta, mas é construída ao longo de toda a vida.

Quem sou eu e qual o sentido da vida, são as duas questões que começam no berço e carregamos como interrogação e tarefa até a hora da nossa morte. A pessoa que seremos vai se desenvolvendo lentamente. Os atos e as palavras, ou seja, os modos por meio dos quais enfrentamos os eventos da vida, vão moldando nossa identidade. Que sempre depende de como enfrentamos a vida.

Mas não somos lançados no jogo da vida de mãos vazias nem totalmente em aberto. Nossa primeira identidade nos é dada pelos outros. Quando alguém vem ao mundo, geralmente nasce no seio de uma família, de quem recebe nome e sobrenome, uma situação financeira, um país, um bairro, uma tradição cultural e religiosa… Recebe, também, as expectativas que os outros (principalmente seus pais) têm a seu respeito, além das esperanças, dos medos, das incapacidades, dos problemas… que os próprios familiares mais próximos vivenciam.

Nossa primeira identidade nunca nos abandona. Ela é nossa origem, o ponto e as condições com que começamos nossa vida, a primeira sinalização do nosso destino. É onde e como começamos a nos reconhecer, a formar nossa biografia e a nos tornar o personagem que somos.

As circunstâncias e situações da vida cotidiana, o modo como as pessoas tratam uma criança, os afetos, o tempo, a atenção que lhe dedicam, entre outros, são revelações tácitas (mesmo que totalmente inconscientes para os adultos) sobre sua identidade, sobre o que ela deve fazer e querer, se ela é importante ou uma presença supérflua no mundo.

Também as maneiras como os adultos, próximos à criança, vivem a vida são revelações sobre seu próprio ser. Assim como nossa primeira identidade nos é dada, também as primeiras orientações de como existir nos são definidas pelos outros. Aprendemos, sempre, a lidar com a vida, seguindo o exemplo dos outros.

Como é ser homem ou mulher, criança, adulto ou velho, o quê querer, como enfrentar situações, como lidar com o corpo, com dinheiro, com a cultura, a beleza… são aprendizados que fazemos na surdina, distraídos. Fazemos, somos e queremos, em primeira mão, como os outros fazem, querem e são.

Um elemento é importante para que essa aprendizagem aconteça: a repetição. Algo precisa durar entre nós para que nos habituemos a ele, de modo que esse hábito se torne parte de nossas condições de viver.

Junto com a repetição, para que uma criança vá formando, com segurança, sua identidade pessoal, outro elemento é primordial: a invariabilidade do ambiente, a rotina das atividades e a mesmice das relações pessoais. O que mantém nossa sanidade, em meio à infindável profusão de solicitações que vivemos a cada dia, é podermos voltar para a mesma casa, dormir na mesma cama, encontrar as mesmas pessoas e repetir os mesmos hábitos (de dormir, comer, brincar, de horários…).

O que seria de nós se não sentíssemos nosso cheiro nos lençóis, se não encontrássemos na geladeira as coisas que gostamos e queremos comer, se o relógio e todas as coisas que usamos não estivessem sempre no mesmo lugar, disponíveis ao uso ou à contemplação?

Sem rotina, hábitos, permanência e estabilidade do ambiente, exemplos a seguir, crenças organizadas e compartilhadas, estaríamos no caos. E o que é próprio dos humanos é a incapacidade de viverem no caos. Os homens precisam transformar o caos em cosmos, em mundo, para poderem viver nele. Fora isso, lhes sobra a loucura, a perdição, a fraca consciência de si (de seus limites, possibilidades, características…).

Felipe começou a receber, agora, aos 4 anos, um cosmos onde encontrar referências e construir autorreferências. O quê não terá compreendido do mundo e de si mesmo enquanto a vida que lhes ofereciam beirava o caos? O quanto não terá sofrido para conseguir, aí, sustentar-se e sobreviver?

sábado, 11 de dezembro de 2010

A Ditadura do Ultrajante


Ditatoriar o tempo, esgarçar as horas, vagar na memória, vender-se ao ócio... quem declina à vida, declina ao tempo. Entremete-se no sótão da mente, busca do âmago os arrepios, as sujeiras, e extrapola emoções. Mentiras... não é mais possível esconder. Subverte-se socialmente, atitudes insanas amiúdes. Nunca se viu nesta situação! Destempero no riso, insensatez nas lágrimas, morbidez nas piadas... é... surtou o coração!

De surtos em surtos vivemos no mundo, como moribundos, em busca de laços e abraços; mentecaptos, ineptos e mitômanos nos tornamos! Malogrados os sonhos, turvamos o pensamento cartesiano e percorremos trajetos venais. Vicissitudes morais, idiossincrasias e sabujices são marcas da volúpia do Ser.

Ser? Somos o quê? Somos o que nos tornamos! Contra à gosto, mas nos tornamos! Tornamo-nos em algo mundano, fruto do ocaso, janízaros de correntes político-filosóficas e religiosas. Forças inextinguíveis nos adentram, modelam e saem à bolor. É um ciclo vicioso. Pensamos que mudamos, mas agimos, reagimos e retroagimos num mesmo caminho. Mudam-se os cenários, mudam-se os atores, mas a cena permanece a mesma!

Palavras jogadas ao vento, pensamentos ao relento... legados inexistentes. Vazio da alma, sapiências tosquenejadas! Ilusor e lúdico no (e pelo) mundo. Influência positiva para uns e negativa para alguns. Tergiversamos o lógico em busca de lograr os pensamentos. Se preciso for, usamos, peremptoriamente, de maniqueísmos, tropelias dos grandes menestréis de guerras e políticas.

Tornamo-nos fâmulos de grandes teóricos e assim não criamos; tão somente reproduzimos. É o estorvo da humanidade! Coarctamos nossos caminhos, reduzindo ao ínfimo nosso poder de criação, o que nos faz cooptar com o velho e torna-nos claudicantes diante do novo. E ainda nos damos ao direito à vacuidade! Não de forma consciente, nos fabricamos como ignaros e labruscos. E assim, pensamos que mudamos o mundo... hum!

sábado, 13 de novembro de 2010

Devanear é Preciso


I
Devanear é preciso!
Libertar-se do esperado,
sagrar-se libertário,
andar para trás,
elogiar loucuras,
descortinar defeitos,
desdogmatizar doutrinas,
maravilhar-se com o urbano,
odiar a natureza...
Ah! devanear é preciso!

II
Macular o limpo,
sair para entrar,
entrar para sair,
rir com a desgraça,
chorar nas alegrias,
romantizar o objetivo,
poetizar rotinas,
alegrar-se na guerra,
entristecer-se na paz...
Ah! devanear é preciso!

III
Entristecer o palhaço,
alegrar o melancólico,
viver pela fé,
cegar o racionalismo,
construir causos,
desconstruir realidades,
mascarar o aparente,
desmascarar o teatralismo,
desejar o indesejável...
Ah! devanear é preciso!

IV
Elogiar a loucura,
refutar a sabedoria,
ser forte na fraqueza,
confundir os sábios,
viver na ignorância,
ler de cabeça pra baixo,
passear elegantemente,
informalizar-se no casamento,
fazer esculturas de lixo...
Ah! devanear é preciso!

V
Não planejar o amanhã,
viver sempre o último dia,
infantilizar-se na maturidade,
recrear-se na seriedade,
morrer na melhor parte,
exultar no luto,
desfalecer no nascimento,
piorar na saúde,
melhorar na doença...
Ah! devanear é preciso!

VI
Saborear o diferente,
amar quem nos odeia,
acreditar em utopias,
honrar quem nos desonra,
levantar-se em meio aos feridos,
prestatizar-se ao indiferente,
iluminar o que é escuro,
obscurecer o iluminado,
emergir na movediça...
Ah! devanear é preciso!

VII
Prender-se em pleno vôo,
voar numa cela,
correr de olhos vendados,
perder para ganhar,
ganhar para perder,
misturar teorias,
inventar quimeras,
tumultuar a ordem,
ordenar o caos...
Ah! devanear é preciso!

VIII
Dormir até tarde,
faltar ao trabalho,
banhar-se no mar,
viajar sem planejar,
conhecer pessoas novas,
conhecer outras histórias,
andar sem destino,
militar em causas sociais,
apregoar uma fé...
Ah! devanear é preciso!

IX
Suspender agendas,
brincar com o cachorro,
criar uma música,
plantar uma árvore,
não fazer filhos,
viver para os outros,
ser indiscreto,
tentar mais de uma vez,
ser demitido...
Ah! devanear é preciso!

X
Fazer uma poesia,
abrir uma gaiola,
desfazer-se de orgulho,
deixar ser ultrajado,
silenciar-se nas calúnias,
gritar nas injustiças,
brigar com o forte,
unir-se ao mais fraco,
nunca negar o passado,
Sim, devanear é sempre preciso!

sábado, 6 de novembro de 2010

O Mundo Anda Doente.


Sei que todos já estão cansados de ouvir isso. Mas é uma realidade que deve ser dita todos os dias, para ver se, ao menos, como fruto da insistência, as pessoas acordam e vejam no que está se transformando o mundo em que elas não apenas vivem, mas ajudam a construir. Há quem achará alguns pontos conservadores demais, fruto de meu ascetismo religioso. Bom, não deixa de ser uma visão de mundo e, como tal, deve ser respeitada – como respeito as demais. O mundo anda doente sim! E em todos os sentidos. Tento enumerá-las:

1. A começar pelo consumismo exacerbado. Vejo que as pessoas enxergam no consumo um meio de status e de satisfação de seu ego perante os que lhes cercam mais imediatamente. A máxima tragicômica espalhada pelos correios eletrônicos à fora é uma verdade incontestável: “As pessoas possuem aquilo que não tem necessidade, para mostrar às pessoas que não gostam de que podem ter aquilo que não gostam”. Parabéns ao autor anônimo desta frase. É doentio! É loucura! Ando pela minha pequena cidade, e vejo a quantidade de carros novos – invariavelmente quase todos conseguidos de forma financiada, trocando muitas vezes o necessário pelo sonho de consumo – espalhados e apinhados em quase todos os cantos de Maceió. O sentimento de se pensar coletivamente inexiste nas mentes das pessoas. O que lhes importa mesmo é ter o seu carro novo, mesmo que não trafeguem como deveriam – ou como sonhariam. Tornam a cidade num verdadeiro caos, e transferem este caos para as suas vidas. Não é nenhuma mensagem de satanização ao carro. Ter carro é bom, útil e cômodo, desde que usado na medida certa. Olham apenas para os seus umbigos. E a tendência é que nunca acordem deste mal, mesmo que inúmeras vozes se levantem proclamando o caos que não há de vir, mas que já chegou! São “vozes que clamam no deserto”. Não adianta! Achamos que, como seres humanos, progredimos diametralmente ao progresso tecnológico e industrial; mas ao que parece, caminhamos em sentido oposto.

2. A fácil aceitação pelas coisas que vem de qualquer religião, mas o desprezo pelos elementos do cristianismo. Vejo artistas brasileiros cantarem e exaltarem divindades das religiões afro, e serem admirados por isso. Mas se algum deles cantar, em meio às suas canções, músicas que exaltem o nome de Cristo, são logo ridicularizados.

3. A valorização pelo exterior, e não pelo interior. Beleza virou mais do que meio de atração sexual – comportamento até então aceitável nos seres humanos, pois trata-se de algo imanente. Transformou-se em meio de aceitação social, status a ser perseguido e alcançado. A Moda contribui decisivamente para isso, ditando o que é belo e o que não é. Assim, quem quiser manter seu “estilo próprio” é considerado ridículo, ou quando menos gravemente, como alguém excêntrico, extemporâneo. Enfim, obrigatoriamente “temos que ser iguais”!

4. As oito horas de trabalho diários. Parece argumento de preguiçoso, mas acreditem: não é! André Gorz já me convenceu disso: onde fica o espaço para aprimorarmos nossas vocações? Nem todas as vocações são voltadas aos interesses capitalistas. Muitos, como eu, querem aprender a tocar algum instrumento, ou aprender uma arte qualquer. São coisas do interior, pertencentes ao individualismo. Onde fica o espaço de tempo diário dedicado à família? A lógica capitalista tende à segregação familiar, e nunca à sua união.

5. Insensibilidade social. Lembro-me de um programa televisivo que assisti no Nat Geo, de uma experiência em trazer membros de uma tribo que nunca estiveram em alguma cidade urbana. Hospedaram-nos numa família urbana e ali puderam trocar experiências. Numa dessas experiências, no intuito de aprenderem o dia a dia de uma família de classe média urbana, eles acompanharam o banho e tosa do animal de estimação da família. À caminho do Pet Shop, eles puderam ver homens e mulheres dormindo nas calçadas e bancos das praças. Quando todos já estavam de volta à casa, um dos membros da tribo perguntou: “Eu não consigo entender, como é que vocês cuidam tão bem de seus animais, mas deixam seus irmãos dormirem ao relento”. Meu Deus! Foi chocante em mim! Essas palavras foram dirigidas a mim! Como é que nunca pensei nisso?

6. Mal uso da política. Historicamente, o Brasil e muitos países das Américas do Sul e Central, além da África e Ásia, carregam em si uma construção deturpada dos valores políticos. É de berço. Desde a construção da res publica que o estilo patriarcal de governo transpassou do modelo familiar para o da política, no Brasil. Isso é bem demonstrado nas compras de votos e nas trocas de favores. Nestes último dias, época de campanha eleitoral, uma sobrinha de minha cunhada, ainda criança, acenou para um deputado estadual recentemente reeleito que passava em campanha. Na sua inocência como criança, esperava apenas uma retribuição de aceno, mas, ao invés disso, recebeu R$ 20,00. Revoltante! Mas o tiro saiu pela culatra pois a mãe desta criança também revoltou-se com a cena.

7. A banalização da vida. É lamentável como tirar a vida de alguém tornou-se algo tão natural! Natural não apenas para quem tira a vida, mas também para nós, que assistimos e lemos nos meios de comunicação, todos os dias, assassinatos de toda espécie. Nossa mente já calejou. Não conseguimos sentir mais nada com isso. A dor do próximo não nos diz mais nada!

8. Desesperança. Enquanto estivermos neste mundo não temos certeza de nada. Caminhamos desesperançosos, até mesmo esperando pelo pior mais à frente; isto para não enlouquecermos quando o mal nos vir de súbito. Assim vivemos sempre ansiosos, não sabendo o que nos sucederá. Às vezes estamos tão atolados à má sorte que estranhamos quando algo de bom nos bate à porta. Construímos na vida porque é o percurso esperado por todos, mas a vontade mesmo é não construir, para evitar decepções futuras. Em todas as culturas, mas, mais acentuadamente na cultura ocidental capitalista, retroagir é demérito, humilhante. Vivemos aqui como “mortos vivos”, e a nossa sorte estará sempre à mercê dos outros. Não existe estabilidade. Nosso bem-estar sempre estará à mercê de julgamentos alheios. Vivo sempre esperando pelo pior, até mesmo como forma de me fortalecer perante as intempéries da vida.

9. A supressão da liberdade. Ora, não é preciso viver preso para se concluir isto. Você já se imaginou vivendo numa sociedade onde uma simples opinião, visão de mundo, não pudesse ser simplesmente exposta? Você já se imaginou tendo sua opinião banalizada pela maioria? Já imaginou se prevalecesse apenas a vontade da maioria e você sendo obrigado a segui-la? Muitos países socialistas, tais como China, Coreia do Norte, Vietnã, Cuba, Iêmen, dentre muitos, ainda existe. Há quem diga – e com muita propriedade – que o capitalismo persegue os ideais da liberté, enquanto que o socialismo persegue apenas a égalité. Parece até que são ideais antagônicos. Mas o são por culpa nossa, pelo nosso egoísmo doentio. Um capitalismo urbano, em detrimento do selvagem, me parece mais apropriado.
E supressão da liberdade parece não apenas ser exclusividade de países socialistas. Países teocráticos, como o Irã, também são mestres na arte de suprimir. É lamentável que ainda se mate em nome de Deus!

10. A banalização do sexo. Saiu do plano natural e se encontra no plano da deturpação moral. Sexo perdeu sua finalidade de procriação e de intimidade. Tornou-se escopo a ser perseguido com toda a mente e força. É a Vulgarização da mais alta demonstração de amor entre dois seres humanos. Aliás, sexo virou a vulgarização, em si, do amor. Se não fosse pelas religiões, que se mantém numa posição de vanguarda, de defesa dos ideais simbólicos e dos bons costumes, e se dependesse das interpretações ultra-subjetivas das Ciências humanas e sociais, o amor receberia outros nomes, tamanhas as leituras e releituras que fazem de si. Ninguém consegue entrar em consenso quando se trata em defini-lo.
A sensualidade está exposta em todos os lugares e pessoas. Desejar ser sensual é mais do que conquista do sexo oposto, é um meio de aceitação social. A pornografia é um dos mercados que mais cresce no mundo. Isto não é um fenômeno de nossos dias, mas vem de muitos anos. Aqui no Brasil, só para servir de exemplo, a indústria pornográfica recebe isenção fiscal. Ou seja, é mais que uma permissão, é um incentivo à promiscuidade. Na Holanda, prostitutas são expostas em vitrines, e tenho certeza que isso servirá de exemplo a ser seguido no mundo inteiro, como demonstração de liberdade, laicidade e até mesmo como demonstração de amadurecimento social e desenvolvimento legal de uma nação. Posso dizer sem medo, que se fosse para dar nome à presente era, a chamaria de Era da Sexolatria. O termo resume tudo.

O mundo anda doente; estamos doentes. Doença da alma, da psiquê e do corpo. Somos Vítimas e algozes, ao mesmo tempo, desta construção do mundo objetivo e subjetivo. Para onde olhamos vemos o mundo sangrar. Sangramos juntos e não sentimos. “É dor que desatina sem doer”, parafraseando Camões. Não temos forças, em nós mesmos, para mudar este quadro, pois estamos por demais embebidos neste mundo, ao ponto de nos considerarmos: somos do mundo, somos o mundo! Olho para as igrejas cristãs, e enxergo alguém que poderia fazer a diferença no mundo, mas que tem estado doente igualmente. Este modelo de cristianismo business que tenho visto, nunca fará a diferença. É o espírito do capitalismo estado presente na vida das igrejas: visam o crescimento de seus templos e de sua membresia. Viver como Cristo viveu, é um preço que não estão dispostos à pagar. Tamanha omissão colabora para a chaga mundial. Só uma interferência divina direta poderá nos salvar, pois, à depender de seus eleitos, estamos perdidos! Mas não podemos exigir cuidados de alguém que também anda doente.

A Ameaça Socialista


Se o mundo achava que estava livre deste mal*, está enganado! Explico:

a) A China é considerada uma superpotência não apenas do ponto de vista econômico, mas também militarmente. Põe medo a qualquer nação do mundo, inclusive aos Estados Unidos, onde, um possível confronto, seria o fim do mundo (metaforicamente, claro). Embora seja economicamente capitalista, mas politicamente é socialista e, como sabemos, não há como haver separação total entre os modelos econômico e político. Sempre a economia de um país receberá interferências da política. Exemplo disso são os Estados Unidos e alguns países europeus, tais como França, Portugal, Espanha e Grécia, que estão mergulhados numa crise econômica sem precedentes e que, para se verem livres deste mal, mudam suas políticas cambial, econômica, financeira e social. Medidas dantescas que afetam a vida e os bolsos dos trabalhadores. Em caminho contrário à crise, de vento em popa, a China vai mostrando ao mundo que as decisões políticas socialistas ajudam não apenas a manter intacta sua economia, bem como fazê-la prosperar em meio a tanta turbulência; que a perestroika foi um “mal necessário” no tocante ao crescimento e fortalecimento da nação.

b) Embora Cuba não seja uma potência econômica – talvez fruto do embargo econômico imposto pelos EUA –, e esteja caído no ostracismo político e econômico, sempre foi considerado exemplo do ponto de vista educacional e da Saúde. Taxa de analfabetismo zero e uma Saúde de pôr inveja a qualquer país do BRIC e do G-8, Cuba nunca cansou de apregoar que tais méritos são frutos de uma política socialista.

c) Senão todos, mas a grande maioria dos países sulamericanos são governados por partidos de esquerda. Embora não façam menção de seus ideais de antanho – exceto Venezuela e Bolívia – as experiências ideológicas e de lutas adquiridos pelos seus governantes nunca serão totalmente extirpados. Fazem parte de suas trajetórias de vida política, e sempre vão dever seus sucessos políticos do presente, às lutas de outrora. Sem falar que os países sulamericanos sempre tiveram uma queda pelos ideais de esquerda e um certo rancor aos EUA e aos seus respectivos países colonizadores. Isto se deve, principalmente e historicamente , à interferência americana e europeia em suas economias, culturas e políticas. Ser um país colonizado com fins extrativistas deixou-nos marcas sociais negativas profundas, e isso é praticamente imperdoável pelos países do baixo trópico. Como corajosamente disse Cristina Kirchner, no episódio do velório de seu marido, em que impediu a entrada e participação do vice-presidente Julio Cobos: rancor não se cura!

d) Os EUA estão mergulhados numa crise econômica sem precedentes. E por incrível que pareça não é fruto da competitividade natural capitalista – como previam os marxistas –, mas sim da inadimplência deles mesmos. Sicofantas de si mesmos! Cuspiram pra cima! Alguns economistas prevêem que os EUA devem recompor sua economia no prazo máximo de dois anos, correndo o risco de não lograrem êxito, passado este prazo. Como foi visto, medidas nunca antes navegadas na mente humana foram tomadas: até mesmo doação (é doação mesmo e não empréstimo!) às grandes empresas e bancos foi feito pelo governo americano, no intuito de socorrê-los. É a velha interferência política na economia. Para quem sempre apregoou e se gabou do livre comércio e da não interferência política nos assuntos econômicos foi um tapa daqueles! Fica a pergunta: por que algumas poucas empresas e bancos de grande porte foram beneficiadas com essas doações em detrimento de outras de mesmo porte? É amigos, sujeira política não é particularidade de países pobres, quem diria!
Tenho minhas dúvidas se conseguirão sair desta crise, principalmente pela atualíssima composição de seu Congresso: Republicanos à torto e à direito! Como é da praxe política de toda oposição - em qualquer lugar do mundo -, não vão perder oportunidade, tempo e esforços para culpar os Democratas, e solução que é bom: nada! Obama passou de mocinho para bandido nesta história. O solution-men decepcionou os corações dos menos conservadores do mundo inteiro, e o jeito será baixar a crista e entregar-se de corpo e alma às mãos dos xiitas conservadores Republicanos, para ver no que vai dar. Se der certo, os Democratas terão que amargar uma bom tempo no ostracismo político, até cair no esquecimento coletivo o seu fracasso. O mesmo se aplicaria ao Brasil, caso o governo do PT fosse um fracasso. Mas para nossa sorte (ou competência dos petistas!) saímos bem na fita.

Como se pode ver, a guerra fria não teve seu fim com a queda do muro de Berlim. E toda essa conjuntura citada pontualmente, trata-se apenas do início (ou retorno?) das dores!

* Mal apenas para os conservadores.

quinta-feira, 7 de outubro de 2010

É Preciso Uma Introspecção Política


Estamos, mais uma vez, diante do processo mais democrático que pode existir numa sociedade democrática representativa. Verdadeiramente – e não por falácia – temos um rico e imenso poder em nossas mãos. Fico demasiadamente triste ao saber que tal poder está alienado e engessado pelo pensamento absoluto em que pensar a política (quer nas conjunturas municipais, estaduais e nacional) é coisa de intelectual ou de “quem não tem nada a fazer”. Sei que a direita conservadora, através de sua práxis política, ajudou, e muito, o constructo deste pensamento; isso ajudava na manutenção do status quo político de suas bases, afastando o interesse público de seus reais interesses: pessoais e inalienáveis. Esse afastamento político faz com que se prolifere as práticas de corrupção e descaso que arruínam nosso país. Segundo estudos da ONU (Organização das Nações Unidas), se o Brasil reduzisse em apenas 50% a sua corrupção, teríamos a mesma estrutura em saúde e educação que os países de primeiro mundo. Como foi mensurado, não sei. Talvez somando os montantes descobertos pelas Polícias, Ministério Público e Controladorias Gerais, ao longo destas últimas duas décadas.

Há quem diga que a situação política que vivemos seja fruto de nossa própria natureza humana: corrompida, aproveitando-se das brechas situacionais para usurpar interesses próprios. Há fundo de verdade nisso, e talvez seja a explicação última e componente sine qua non do arcabouço explicativo holístico para tais práticas. Quando falo que “é preciso uma introspecção política”, não me refiro apenas a uma mudança de estrutura política nos âmbitos representativos de poder, mas também de uma mudança de estrutura do pensamento e, consequentemente, comportamental, enquanto sujeitos políticos. Devemos nos reconhecer nas ações políticas que são discutidas e votadas nas Casas Democráticas de nossa nação; saber que verdadeiramente não há distâncias, como se as decisões políticas interferissem na vida de seres alienígenas e não à nossa. A Lei da “Ficha Limpa”, por exemplo, deveria ser vista como um despertar da população para o tamanho do poder que temos em nossas mãos; de mostrar que é sim possível mudanças partidas de dentro da sociedade organizada; que mudanças significativas na estrutura social, político e econômico são viáveis, desde que haja o auto-reconhecimento de boa parte da sociedade – para não ser utópico em dizer toda sociedade – da influência que seus pensamentos e atitudes podem fazer. O “estrago” seria grande! Refiro-me ao “estrago” nos interesses pseudo-políticos dos maus representantes.

Entendo que uma possível organização social em massa não se dá de forma pura, ou seja, sem interferências ideológicas e doutrinárias, pois como já bem disse Bakhtin “um produto ideológico faz parte de uma realidade (natural ou social) [...] tudo que é ideológico possui um significado e remete a algo situado fora de si mesmo” (Bakhtin, 1997). Muitos, principalmente os ideólogos de esquerda – que discutem e labutam há muito nas causas sociais – veriam como uma oportunidade ímpar na história (mais uma!), para propagar suas doutrinas, e incutir na mente daqueles que não se reconhecem de esquerda que, mesmo sem querer, defendem os mesmos ideais e projetos. Isso seria um verdadeiro “balde de água fria” na continuidade da luta social civil organizada, tendo em vista que, quase que em absoluto, a população brasileira é politicamente tradicional, conservadora, tendo, às vezes, ojeriza pelo pensamento de esquerda (refiro-me à esquerda verdadeira, e não a uma Terceira Via, adotado por FHC e continuado por LULA). Basta relembrarmos a Marcha da Família com Deus Pela Liberdade, ocorrido em março de 1964, onde estima-se ter reunido cerca de 500 mil pessoas, em detrimento à Marcha dos Cem Mil que militavam contra a ditadura. De lá para cá pouca coisa mudou no perfil político brasileiro. Mudam-se as gerações e continua impregnado na cultura política brasileira o mesmo conservadorismo – senão pior.

Mudar o pensamento político dos brasileiros não significa necessariamente deixar o conservadorismo e aderir aos ideais de esquerda. Quando a sociedade passa a se interessar e participar dos processos políticos de seu município, e/ou estado, e/ou nação, não importa a bandeira que esteja no poder (se de Direita, Centro ou Esquerda - isto é, a velha pseudo-esquerda brasileira que tanto conhecemos). Todos eles passarão a ter maior cuidado nos gastos públicos, serão mais rigorosos em casos de corrupção, em casos de projetos de leis mais delicados – que vão de encontro ao pensamento cultural e religioso da sociedade, bem como à vida econômica dos brasileiros – passarão a fazer mais plebiscitos, consultando e não mais desrespeitando a soberania popular. A mesma realidade se aplicaria às questões sócio-ambientais, onde possivelmente os interesses de pequenas comunidades não seriam tragados pelos interesses do mercado imobiliário e do grande capital, que enxotam populações tradicionais de suas regiões, esgarçando raízes históricas, culturais, sentimentais e naturais para atender aos interesses fúteis dos novos burgueses, que surgem como beneficiários e resultados de uma educação diferenciada da grande maioria dos brasileiros.

Destarte, não importaria tanto um welfare state ou um laissez-faire. De uma forma ou de outra, com a participação e interesse direto da sociedade (não estou fazendo alusão a uma democracia direta, onde acho pura quimera), as coisas andariam dentro dos conformes – dentro de seus respectivos modelos políticos e econômicos, óbvio. Todos têm a contribuir, desde que haja participação da sociedade civil organizada no controle dos gastos e nos acordos licitatórios realizados pelos governantes. Podem até pensar que estou sendo pragmático ao extremo, sem firmeza ideológica, mas tenho percebido que muitos intelectuais da política pensam-na sobejamente como uma atmosfera meramente ideológica, não havendo espaço para a prática, que, ao meu ver, é o que verdadeiramente faz a diferença no meio social. Muitas vezes sou levado a crer que em uma defesa político-ideológica, em confrontação à outra(s), há muita vaidade, mas não uma vaidade pura e simples; refiro-me a uma vaidade extremada, que cega ao ponto de não enxergar propostas positivas em outros campos ideológicos. Isso (a vaidade), ao meu ver, explica, em boa parte, a grande diversidade de partidos políticos de esquerda – sem levar em conta seus interesses políticos (desta vez entendam "políticos" pejorativamente). No frigir dos ovos, todos têm propostas e anseios em comum, mas distanciam-se pelo orgulho doentio em querer que seus pontos de vistas superem aos dos demais. É como se seus interesses egóicos sobressaíssem em detrimento aos interesses sociais. Nada mais além do que fruto de uma esquerda acadêmica, teórica, aprendida – e convencida – nas cadeiras escolares, e não na prática pela defesa dos interesses dos menos favorecidos, vítimas da selvageria capitalista que esgarçam qualquer tipo de esperança que possa florescer em seus corações. Enfim, um simulacro!

(Re)Pensar a política intimamente é mais do que um dever cívico: é um dever moral. Não há demérito algum em refleti-la de forma não viciada, objetiva, imparcial, tendo como único escopo o bem-estar de todos. Parafraseando a bíblia: quem tem ouvidos, ouça!