domingo, 23 de outubro de 2011

Vamos falar em milagres

É isso mesmo: Milagres! Este tema tornou-se tão melindroso entre as igrejas evangélicas sérias¹, que muitas preferem, sequer, citar o nome MILAGRE. Isso para não correr o risco de se parecer com as falsas igrejas² evangélicas que tem surgido “à rodo”, com o intuito de ludibriar a muitos, prometendo milagres e mais milagres, como se eles fossem os provedores dos milagres e não o nosso Deus. Quando vejo estes que se auto-intitulam “pastores, bispos e apóstolos” se sentido importantes por estarem realizando milagres (diga-se de passagem: falsos milagres), só me lembro
do episódio em que o próprio Cristo diz: “Nem todo o que me diz: Senhor,Senhor! entrará no reino dos céus, mas aquele que faz a vontade de meu Pai, que está nos céus. Muitos me dirão naquele dia: Senhor, Senhor, não profetizamos nós em teu nome? e em teu nome não expulsamos demônios? E em teu nome não fizemos muitos milagres? Então lhes direi claramente: Nunca vos conheci; apartai-vos de mim, vós que praticais a iniquidade” (Mateus 7. 21 a 23). Devemos ter em mente que os mesmos milagres que existiam no passado podem acontecer hoje. Basta termos o interesse de sermos cheios do Espírito Santo. Mas não um “interesse interesseiro”, ou seja, de querer ser cheio do Espírito só para realizar milagres. Não! Devemos almejar ser cheios do Espírito para chegarmos à estatura de Cristo, que implica em:a) amar a Deus acima de todas as coisas, e ao próximo de todo o coração; b) ter uma fé capaz de remover montanhas; c) amar os nossos inimigos; d) viver em Espírito e não pela carne; e) sentir verdadeiro prazer em realizar a obra de Cristo; f) ter compaixão pelas almas perdidas; g) exalar alegria e etc.

Quando atingirmos este nível, então Deus realizará milagres por meio de nós, naturalmente. Afinal de contas, Ele mesmo nos disse: “Em verdade, em verdade vos digo: Aquele que crê em mim, esse também fará as obras que eu faço, e as fará maiores do que estas” (João 14.12).



1. Batistas (poucas da CBB, Regular e Fundamentalista), Presbiteriana, Luterana, Anglicana, Metodista e Congregacional.

2. Refiro-me a Universal do Reino de Deus, Mundial do Poder de Deus, Internacional da Graça de Deus, Evangelho Quadrangular, Deus é Amor, e a 99,99% das Neo-pentecostais que tem surgido. Sem contar as seitas: Adventistas, Testemunha de Jeová, Mórmons, etc.

sábado, 15 de outubro de 2011

Conselhos

"Se conselho fosse bom, ninguém daria de graça” - É assim que pensa o mundo. Na verdade aconselhar é algo de muita responsabilidade: você transfere ao outro a sua visão de mundo. Sabemos que por conta da nossa individualidade,temos uma visão de mundo própria. Essa visão de mundo nunca é completa,óbvio, porque não temos a onisciência de Deus. No entanto, quando aconselhamos, achamos que dizemos a coisa certa na hora certa.

Viver um problema e não saber o que fazer diante dele não significa necessariamente falta de sabedoria. Costumo dizer que a vida é como um jogo de futebol: “Quem tá jogando, tá sentindo a pressão, o clima, e as dificuldades do jogo. Mas quem tá do lado de fora, nas arquibancadas, está tranquilo, vendo as brechas e possíveis soluções para se ganhar o jogo”. E quando estamos passando por algum problema não é diferente, pois estamos sentindo a pressão, o clima, e as dificuldades do problema. Mas nosso(a) amigo(a) está apenas como espectador, vendo as brechas e as soluções. Por isso pedir conselho é algo muito importante e pode fazer toda a diferença.

O problema então passa a ser outro: a quem pedir conselhos? Em tese, o povo de Deus era pra ser o mais bem preparado do mundo para se dar conselhos. Afinal de contas, tem conhecimento a respeito de Deus, e conhece muito bem a Sua palavra. Mas não é isso que temos visto. Até porque ainda há um outro problema em cima desse: “muitos são chamados, mas poucos escolhidos”; "o joio cresce junto com o trigo”; e “nem todos que dizem Senhor, Senhor entrarão no
Reino de Deus”
. Ou seja: Nem todos que vão às igrejas são considerados filhos de Deus e por isso mesmo não podem ser considerados aptos a serem conselheiros. Mas ainda não para por aí, pode piorar: Cristo nos deu a dica para que conhecêssemos os bons conselheiros: “pelos frutos os conhecereis”. Mesmo assim nem todos são aptos a identificarem esses frutos (embora Ele nos cite um a um para não restar dúvidas: “... o amor, a alegria, a paz, a paciência, a delicadeza, a bondade, a fidelidade, a humildade e o domínio próprio” (Gal. 5. 22 e 23)). E Tem mais um problema. Aliás, dois: (1) O que pode ser amor ou bondade (por exemplo) para uns, não pode ser para outros; e (2) quando um verdadeiro filho de Deus se ira (IRA=FALTA DE AMOR), quer dizer então que ele não seja verdadeiramente filho de Deus?

É um problema atrás do outro. Uma verdadeira panaceia! Por isso mesmo que precisamos, mais do que nunca, pedir conselhos à fonte: A leitura da Bíblia, com a orientação do Espírito Santo (que não é um espírito incompetente, nem inerte, mas que age em nós e, embora seja invisível, é mais real do que tudo que os nossos olhos possam ver!).

domingo, 9 de outubro de 2011

A Vaidade.

Vejo vaidade em todos os lugares, inclusive na obra de Deus. Muitos pastores acham que tem um chamado, onde na verdade escutam o chamado do status almejado. Gostam de sentir o poder sobre outras pessoas, de poder interferir na vida de outros através de suas falsas mensagens. O que temos visto é uma invasão de pastores, bispos, apóstolos e reverendos na mídia, todos buscando agradar e atrair as pessoas para si, e não para Deus. Dizem o que as pessoas querem ouvir, mas não dizem o que as pessoas precisam ouvir. Eles não se importam no que Deus pensam deles, e confundem a aceitação das pessoas como sendo fruto da bênção de Deus em seus “ministérios”. A verdade é que o coração do homem é enganoso, eles crêem naquilo que querem crer, e não Naquele que precisam crer.

Mas a vaidade não se restringe apenas aos “pastores midiáticos”, como também àqueles que não almejam que o evangelho cresça se não for pelo seu ministério, na sua igreja. Egocêntricos!Estes são mais propensos a fazer do evangelho um parque de diversões, onde oferecem de tudo que agrade as pessoas, com todo tipo de movimento lúdico (festas gospel, danças extravagantes, jogos e etc.). Outros – mais simples, porém não menos vaidosos – ostentam suas soberbas através de suas mensagens. Preocupam-se mais em “vomitar” seus conhecimentos científicos à respeito da vida, a dizer simplesmente o que a bíblia diz. Para esses a bíblia não é suficiente. Não levam à sério um dos princípios da reforma protestante que diz: “Sola Scriptura" (Somente a Escritura). Numa única mensagem, dão muita ênfase ao que dizem os grandes nomes da Filosofia, Sociologia, Psicologia, Literatura e etc. Almejam serem vistos como intelectuais e não simplesmente como servos do Deus Altíssimo. Não levam à sério a recomendação de Cristo quando diz: “Aquele que quiser ser o primeiro, que seja o último”.

João Alexandre, um dos mais renomados da música cristã, resume tudo isso em uma de suas canções, intitulada “Vaidade”:

“Vaidade no comprimento da saia, no cumprimento da lei. Vaidade exigindo prosperidade por ser o filho do Rei. Vaidade se achando a igreja da história: vaidade pentecostal. (...) Vaidade juntando a fé e a vergonha, chamando todos de irmãos. Vaidade de quem esconde a verdade por ter o povo nas mãos. Vaidade buscando Deus em si mesmo, querendo fugir da cruz. (...) Os falsos chamados apostolados do lado oposto da fé. Dinheiro, saúde, felicidade, aquele que tem, contra aquele que é. Rádios, TV's, auditórios lotados, ouvindo o “evangelho da marcha ré”. A morte se esconde atrás dos templos, tudo é vaidade!”

sábado, 8 de outubro de 2011

Sobre a Ilusão.

A ilusão não apenas faz parte da vida, como é a força motriz dela. Caçamos a ilusão em todas as esquinas; tudo nos vira motivo de nos iludirmos. Construímos uma imagem lúdica de nós mesmos que nos dão força para “seguirmos em frente” na estrada da vida. A ilusão bloqueia nossa capacidade de autoavaliação; aliás, podemos até dar nomes às nossas falhas, mas a ilusão faz-nos crer que nossas qualidades as superam.
A ilusão nos faz fugir da realidade daquilo que somos, de nossas incapacidades, assim como do mundo – que mais parece um campo de batalha. Procuramos meios de fugir desta selva de pedra; a desesperança perante a vida faz-nos apegar a tudo aquilo que nos dar prazer. É um meio de fuga. Se pararmos para analisar, veremos que o mundo nos oferece a doença, mas ao mesmo tempo nos apresenta o remédio. Ou melhor, o pseudo-remédio. A indústria do entretenimento e da pornografia, assim como o consumo, são os antídotos oferecidos que amenizam a dor de viver neste mundo. As artes de um modo geral, nos faz esquecer dos mundos externo e interno. O filme, por exemplo, faz-nos entrar em outras realidades e temporariamente (enquanto durar o filme) esquecer o nosso. Num mundo consumista como o nosso, a nossa capacidade de consumir interfere diretamente em nosso estado de felicidade. Não permitir que a nossa capacidade ou incapacidade de consumo dite o nosso estado de felicidade, é ir de encontro com a ilusão.
Ao dizer que a ilusão é a força motriz da vida, dizemo-la capaz de fazer com que não reconheçamos nossa incapacidade de aprender algo ou mesmo de pertencer a um certo meio. Isso gera um conforto sobrenatural que nos faz procurar a diferença. A ilusão tem esse poder: de ludibriar-nos a fazer com que busquemos caminhos diferentes, achando que coisas diferentes nos acontecerão. Pensamos: “precisamos ser diferentes, fazer coisas diferentes, para que coisas diferentes aconteçam em nossas vidas”. É um pensamento que, embora tenha um fundo de verdade, não passa de estratégia da ilusão para nos fazer seguir em frente.
Há quem olhe a ilusão como algo maléfico, destrutivo. Mas quem poderia me dizer que seria capaz de lançar um olhar profundo de si mesmo e permanecer inerte, sem choque algum? Ao lançarmos este olhar de nós mesmos, de pronto a desilusão toma-nos conta. É para combater a desilusão que buscamos, desenfreadamente, toda forma que nos proporcione prazer, e que, por usa vez, nos façam esquecer de olhar pra nós mesmos.
O mundo tenta, através de suas nomenclaturas, pôr a depressão como categoria de doença. Mas eu diria que deprimidos são todos aqueles que um dia tiveram a ousadia de olhar para si mesmos, e de reconhecer que seus defeitos superam suas qualidades. A verdade nua e crua fez com que colidissem com a ilusão e, para estes, a ilusão não tem poder.
Uma outra estratégia da ilusão é fazer com que creiamos no nosso próprio ponto de vista. Mas como bem sabemos, a vida é muito mais aquilo que os nossos olhos podem ver. A própria História e Sociologia, lançam um olhar parcial para um determinado fato histórico-social. O olhar vai de acordo com as inquietações do pesquisador. Por isso, a incapacidade humana de saber interpretar o fato em sua completude. A visão holística não passa de uma ilusão; uma tentativa frustrada de pôr o humano no mesmo patamar de Deus, ou mesmo uma negação ou superação do Ser Divino.
Vivo no mundo desiludido, ou seja, sei o fiasco que sou. Quando olho para o meu passado, vejo alguém que tentava, a todo custo, ser alguém que realmente nuca fui. E não adianta, nesta altura da vida, culpar os meios os quais fui inserido. Sei do poder de influência do meio, mas sei que seu poder não é total. Aliás, diga-se de passagem, duas observações merecem atenção: a primeira é que a ilusão recebe o codinome de autoestima; e a segunda é que nunca deve-se confundir a ilusão com a quimera, pois a primeira é atingível, enquanto que a segunda é inatingível.
Não serei um janízaro da desilusão. Guardo-a para mim. Embora saiba que a ilusão não é imanentemente saudável, sei que o poder da desilusão deixa inerte àqueles que dela se apoderam. Por isso, não me dou ao direito de tirar de ninguém a sua ilusão; deixo-o seguir em frente. Afinal de contas, estou cônscio de que nunca poderei mudar o curso do mundo.

sábado, 24 de setembro de 2011

Pensamentos de Primavera

“Sempre houve em mim uma desconfiança da sinceridade do meu amor por Deus e pela minha esposa. Mas ontem, ao gritar com ela, me bateu, de imediato, um profundo arrependimento pelo mal cometido, uma vontade enorme de reatar os laços e de retomar a paz entre nós. Assim descobri que a amo e que também amo também a Deus; pois, quando peco, também me vem um sincero arrependimento, uma vontade de apagar o mal cometido. Então descobri que o amor humano não é ausência de erros, mas o arrependimento deles.”

Em 24/09/2011
03:30 AM


“Vivo uma grande oportunidade de perseverar na fé em Deus. Minha situação financeira me preocupa, e isso faz, em rápidos lapsos, me abater e me fazer duvidar da presença de Deus e de Sua provisão na minha vida. Mas sei que não posso deixar que a minha situação terrena (seja ela qual for: financeira, física, psicológica) dite o meu estado emocional, as minhas certezas, e consequentemente a qualidade do meu trabalho a Deus; mas sim a suficiência da cruz de Cristo e de Sua graça, seja o único motivo que me impulsione a viver de forma alegre em todos os momentos, e no trabalho que Deus me der a fazer.”


Em 24/09/2011
03:50 AM

sábado, 10 de setembro de 2011

Viva o Fracasso!

Sou mesmo um fracassado. Isto admito porque não correspondo aos padrões do mundo capitalista. Minha mão de obra é totalmente desqualificada para aquilo que se espera aos interesses capitalistas. Não posso contribuir para que me suguem ao ponto de acumularem riquezas suficientes às custas de meu trabalho alienado. Sugam sua alegria de viver, suas forças, sua mentalidade, “adestra” seu comportamento para uma espécie de tipo ideal capitalista de subserviência que irá proporcionar o bem-estar aos donos do poder; bombardeia – através da mídia, ciência e até mesmo da religião – sua psiquê ao ponto de estabelecer como verdade absoluta o fato de que se render aos interesses capitalistas vão torná-lo feliz através da recompensa financeira (que muitas vezes não corresponde ao esforço realizado).
Preciso passar a minha existência sendo escravo deste sistema? O mundo é capitalista e parece não haver jeito de se livrar desta ilusão. Durante anos o socialismo (assim como o anarquismo, de forma mais radical) tentou vitoriá-lo, mas sem lograr êxito. Não sei dizer se seria diferente com o socialismo, mas quero me ater a pensar somente a realidade – e não hipotetizar “como seria” o mundo com outro sistema. Eu me enxergo hoje, como alguém totalmente despreparado a viver neste mundo, pois não posso dar aquilo que o sistema tanto quer de mim – minha própria vida. Não quero me render a este sistema e não é porque quero medir forças com ele, ou seja, não é uma questão de poder (correlação de forças); mas sim de não tornar infeliz minha passagem neste mundo em nome de um sistema que não se interessa em saber o que ELES podem TE oferecer, mas sim o que VOCÊ pode oferecê-los. Não há reciprocidade de interesses. Eles ditam o que querem e só resta a você concordar – se é que você queira viver dentro dos padrões materiais e éticos estabelecidos por eles.
Somos valorizados pelo que temos. É a lógica do acúmulo. Se quisermos adquirir respeito neste mundo, temos que TER. Até a Ciência está subserviente à logica do acúmulo do saber e do dinheiro. Exemplo disso é que até para se adquirir conhecimento precisamos de dinheiro para adquirirmos as fontes do saber – os livros. E percebam também que, para que o nosso saber seja valorizado e reconhecido pela humanidade, precisa-se estar representado por um diploma, intermediado por uma Universidade. É tudo ilusão. Nas Universidades, vale salientar, seu valor está intimamente ligado à sua produção acadêmica. Quanto mais produz, mais valor você tem. É a lógica do acúmulo na Ciência.
Os grandes pensadores do mundo e suas contribuições teóricas, assim como as grandes descobertas da humanidade, não estavam à mercê de Universidade alguma. Muitos deles nem sequer estavam interessados pelo reconhecimento, pelo contrário, foram presos, torturados e mortos em nome de suas descobertas e pensamentos (ver Galileu e Lutero, por exemplo). Eram livres em seus pensamentos, altruístas em suas descobertas, e esta liberdade os levou a grandes realizações que revolucionaram o mundo.
O SER não passa de uma representação do TER. A lógica do trabalho intermedia os julgamentos. Julgamos as pessoas pelos seus trabalhos. Ninguém mais se interessa pelo seu caráter. Estamos presos a uma lógica destrutiva onde o conceito de felicidade está ligada intimamente ao dinheiro. Até o mundo da Arte está dividida; grande parcela dela está subserviente ao dinheiro. Já dizia Chico Science: “Computadores fazem arte, artistas fazem dinheiro”. A arte radical grita, tentando seu espaço, mas sem sucesso.
Reconheçamos que até o cristianismo dos últimos tempos está totalmente subserviente a esta lógica. Cristo ensinou-nos a não acumularmos riquezas neste mundo; falou-nos que o amor ao dinheiro é a raiz de todos os males; falou-nos que devemos negar a nós mesmos; Cristo mesmo foi exemplo vivo de altruísmo; mas isto é ensinado nas igrejas? Talvez. E, se sim, muito pouco. Basta nos lembrarmos de como e graças a quem o capitalismo se desenvolveu no mundo. Cristo não foi contra o trabalho em si, mas o seu uso para fins de acúmulo; e é isto que o capitalismo nos doutrina; é isto que a humanidade persegue com todas as suas forças; é nisto que está ligado o conceito de felicidade; e foi isso que o protestantismo ensinou ao mundo, desvirtuando por completo do cerne do ensinamento do próprio Jesus: “Que todo aquele que Nele cresse, tivesse vida em abundância (…) e não se conformar com o mundo”. Vejo que até para os mais ascetas cristãos, posso ser visto como o maior asceta entre todos (cumprindo com os todos os deveres religiosos exigidos), mas se não trabalhar, passarei a ser visto como um fracassado. Até o conceito de fracasso, para os cristãos de hoje, está intimamente ligado à lógica do trabalho capitalista. O espiritual pouco importa; o que importa mesmo é estar à serviço do capitalismo.
Até o conceito de amor eros está totalmente deturpado. Não conseguimos amar alguém que não esteja à nossa altura (medidos pelo TER material e imaterial). Não queremos passar o resto de nossas vidas com alguém que não possa nos oferecer algo que nos proporcione algum conforto (mais uma vez: material e imaterial).
Não me envergonho em dizer para o mundo inteiro: sou um derrotado (e que seja!). Posso ser julgado como preguiçoso, lunático, utópico, mas, como já dito outrora, o julgamento humano está totalmente alienado à logica capitalista do trabalho, e esta, por sua vez, do acúmulo. Por isso mesmo não me importo. Não me importo em TER, nem mesmo em SER – aos olhos do mundo. Quero ter a sensação de liberdade em dizer na “cara” do povo, que sou um derrotado por não me moldar à lógica mundana e de não compactuar com a mesma; e fitar bem os meus olhos em seus olhos e esperar o olhar confuso, julgador e penalizado, ao mesmo tempo.

Maceió, 10 de Setembro de 2011.
03:13 AM

segunda-feira, 18 de julho de 2011

Pobres Poderes

O artigo e o seu título, é de autoria do jornalista Ricardo Mota. Achei muito interessante e por isso reproduzu-o:

"Que moleque folgado, aquele! Em plena Pajuçara, fez parar o trânsito para que pudesse atravessar a rua. Ao concluir a sua “missão”, sinalizou aos motoristas que estes poderiam prosseguir viagem.

Achei muita graça na cena, imaginando que aquele garoto de rua, “maltrapilho e maltratado”, exerceu ali o seu fugaz poder. E o fez com autoridade, além de um tanto de deboche, o que me agradou mais ainda. Pensei: ele tem consciência do que está fazendo e gosta de fazê-lo (depois, pude observar de longe que ele repetia a ação de quando em vez).

É sedutor o poder, muito já foi dito. Mas acho que ele envolve com mais facilidade os que são fracos. Seja por buscá-lo a qualquer custo, seja pelo desejo mesquinho de consumir as sobras do farto.

As ruínas de uma existência podem surgir imediatamente após a conquista do troféu – pior ainda, se é o poder político. Pude acompanhar de perto, lamentando, a destruição de uma vida interessante de uma pessoa idem.

De sólida formação intelectual e profissional, ela conseguiu o que buscou quase que desesperadamente. Pouco tempo depois, me dizia aos prantos, havia descoberto o fundo do poço – a sua sensibilidade apontava.

E aí? O esforço sobre-humano que havia feito para chegar ao topo fez em dobro para lá permanecer. É a lei: perder é pior que não nunca ter tido.

Ademar de Barros, criador do “rouba, mas faz”, foi indagado, certa feita, por que gostava tanto de ser governador de São Paulo. Respondeu com uma pergunta:

- Sabe lá o que é passar quatro anos sem pegar na maçaneta de uma porta?

Pois é, eis uma das grandes confusões involuntárias e previsíveis dos “poderosos”: entendem bajulação como respeito ou admiração, puro interesse como amor, e por aí vai.

Aos que estão dispostos a conquistá-lo, é preciso saber: estar no poder é renunciar, quase sempre, à possibilidade de vir a ter uma nova amizade para valer, verdadeira. Se já tinham amigos antes da subida, que os conservem tanto quanto puderem – terá sido esta a melhor obra de suas vidas.

Só um amigo de verdade é capaz de apontar a falha “invisível” – mesmo que clamorosa -, pôr o dedo na ferida sem temer o grito do outro. Quem, estando alguns degraus acima, há de deixar aberto o canal da crítica ou até mesmo da autocrítica? A humildade morre com o humilde.

Mal comparando, o poder se assemelha à Caixa de Pandora. Mas com uma fundamental diferença: em vez da esperança, o que nela restará depois de aberta será uma imensa solidão."