sexta-feira, 8 de maio de 2015

A Janela de Overton

Muito interessante, vale a pena conferir:

http://www.portalcafebrasil.com.br/podcasts/362-a-janela-de-overton/

A POESIA DESPOETISADA DA BAGUNÇA


             Louvem a bagunça, pois da desordem da ordem estamos cheios! O caos ordenado ou a ordem caótica? Não sei em qual delas encaixo meu país. Prefiro viver na ordem ou até mesmo no caos, pois assim não me desorientaria. A ordem orienta para sua manutenção; e no caos sabemos onde está o norte.

E onde estamos, o que sabemos? Se não sabemos sequer onde estamos, onde encontrar o norte? Quem é o norte? Não me surpreende se buscamos o além, pois o aquém está perdido.

Perdido na bagunça que causamos. A bagunça entra em nós, e nós nela! Como escapar disso? Desde a redemocratização que criamos a ordem desordenada, apoiamo-la fervorosamente. Quiçá até a adoramos... criamos em torno dela uma espécie de tabu! Achávamos que a ordem dependia da manutenção deste tabu, coitados!

A nossa ordem não é a ordem dos “achados”; “perdidos” nada sabem ordenar, muito menos a nós! Jogaram o futuro do nosso país – o nosso futuro! – nas mãos de quem nada sabe: o povo – bagunçado (e bagunceiro!), desordenado (e desordenando!), e perdido (e pondo a perder!). Quem nada sabe, nada faz ou faz errado!

Já nascemos bagunçados e esperamos o que? Que o milagre venha de nós? Quimera fantasiosa! – desculpa a proposital redundância! Vivemos à revelia deste povo culpado pelo seu próprio crime e que se acha inocente – tamanha a desorientação!

Desconstruímos o que não construímos; vivemos a morte de nossos tempos (e atos), e morremos onde nunca houve vida.

O que vivemos na esfera político-econômica é produto de nossas escolhas e atos. Escolhemos errado, fizemos errado. A matemática é simples. Mas esperar que o certo venha de quem é imanentemente errado, só em filmes de ficção que nem em Hollywood conseguiu se produzir!

Participamos de manifestações, fazemos “panelaços”, opinamos contra nas redes sociais, compartilhamos vídeos, áudios e textos contra a “situação”, aderimos à moda do “fora corruPTos”, negamos que neles votamos, pedimos impeachment, mas se uma outra eleição ocorrer, erraremos de novo! Talvez não da mesma forma, mas outras escolhas erradas seriam tomadas. Só bagunçaríamos o que nunca foi arrumado.

Ah, a intenção era fazer poesia... mas a bagunça (dentro e fora) é tão grande que não dá para organizá-la em verso e prosa. 

sábado, 2 de maio de 2015

REFLEXÕES SOBRE O ENCONTRO DE JESUS COM A MULHER SAMARITANA (Jo. 4. 1-26) - PARTE II



v. 15“Senhor, dá-me dessa água, para que não mais tenha sede, nem venha aqui tirá-la”.
De imediato, aquela mulher reconheceu que as suas tradições não preenchiam o vazio de sua alma; era-lhe insuficiente demais, não serviam como alicerce para a sua vivência na terra. A expressão “nem venha aqui tirá-la” significa, em outras palavras: “para que eu não mais recorra as minhas tradições”.

        É bem verdade que o Ser humano procura razões para viver e se orgulhar; o Ser humano é um ser local e ideológico, costuma se orgulhar de suas raízes, e busca alguma ideologia para se identificar. Como já bem disse um cantor e compositor brasileiro: “ideologia, eu quero uma pra viver”. Mas a mulher samaritana teve uma atitude louvável: reconheceu a insuficiência de suas tradições, raízes, e a ideologia recorrente na Samaria. Talvez naquele momento ela tenha desabafado algo que a deixava engasgada e viu a pessoa certa e o momento certo para dizer que aquelas tradições não lhe representava.
Fico a imaginar quantos e quantas estão presos(as) às mais diversas tradições, o mais fundo de suas consciências os acusam que suas tradições e ideologias não os levam a canto algum, não preenchem seus vazios existenciais, enfim, lhes são insuficientes.

     Não é novidade alguma que o cristão deve lutar contra a tríade maligna: satanás, carne, e o mundo. Destes, o mundo faz a parte dele pondo em nossa frente um “cardápio” imenso de ideologias, ou seja, motivos para se viver. O encurtamento das distâncias provocada pela internet, só fez aumentar ainda mais esse “cardápio”, e como consequência, o vazio. Muitos passam a se identificar com histórias que não são suas, com raízes que nunca lhes pertenceu, e com ideologias que nada tem a ver com a sua história de vida. O vazio humano é tamanho que chegam mesmo a abraçar, “de corpo e alma”, estilos de vida e causas, que nunca pertenceu ao seu território.

     Óbvio, não era o caso da mulher samaritana, ela se orgulhava das tradições criadas em sua própria terra. Porém, todo tipo de tradição – seja ela “de dentro” ou “de fora” – que não é fundamentada em Cristo, não tem o poder de preencher a alma com satisfação. Um dia tornará a ter sede.

vs. 16 a 18 – Ao ler esse trecho, nada tira de minha cabeça que Jesus estava testando o grau de sinceridade daquela mulher. Percebam que Jesus pede para que ela chame seu marido, logo após ela pedir “a água que não mais dá sede”. Embora sendo Deus, e conhecido a sinceridade interior da mulher ao pedir desta água, Jesus queria mais uma prova de sinceridade e pede para ela falar de algo que traz constrangimento à vida de qualquer mulher de sua época – e a muitas de nossos dias! Ela poderia, movida pelo constrangimento, ter mentido sobre sua situação matrimonial, como tenho visto muitas mulheres fazerem em nossos dias: vivem amasiadas com algum homem, tem toda uma vivência de casados, e os chamam de maridos ou “namoridos”. Porém, devo destacar que a aliança do casamento, firmada na presença de Deus e da sociedade, tem um caráter mais do que simbólico para Deus: é também uma aliança espiritual. Perceba que Jesus reconhece isso ao dizer: “...e o que agora tens não é teu marido...”. Jesus deixa bem claro que aquele tipo de relação não era uma casamento de fato! Sinto muito se o que está sendo dito agora está trazendo constrangimento a alguém, mas a verdade precisa ser dita (com zelo e amor) e que sirva de alerta para muitos e muitas, para que corrijam suas relações amorosas diante de Deus. Pode até haver o amor sincero entre vocês, porém, para Deus, isso não é suficiente para que se declarem casados.

    Abro parêntese: “A igreja é um local de renovação de esperanças, mas também é de exortação”. Fecho o parêntese.

vs. 20 e 21A mulher ainda estava com a cabeça movida pelas tradições. Ela não mais tinha dúvida de que Jesus era um profeta (ver v. 19), acreditava em suas palavras, porém, a esfera espiritual, para ela, ainda estava atrelada a algum tipo de tradição. Ela ainda acreditava que existia um local certo para se adorar: “Nossos pais adoraram neste monte, e vós dizeis que em Jerusalém é o lugar onde se deve adorar”. Antes, um adendo: se perceberem a narrativa do diálogo entre Jesus e a mulher, em nenhum momento se vê Jesus falando que “em Jerusalém é o lugar onde se deve adorar”. Além de o julgar pela região onde habitava (Judeia), quis colocar palavras na boca de Jesus. Ruídos de comunicação acontecem a todo instante.

     Muitos agem como essa mulher: ainda acreditam que a igreja A ou B é a certa, que Deus só recebe a adoração e escuta seus clamores naquela denominação ou templo. É um tipo de religiosidade, algo que deve ser banido da mente de muitas pessoas. E foi nesse intuito de banir essa percepção que Jesus declara: “Mulher, crê-me, a hora vem, em que nem neste monte, nem em Jerusalém adorareis o Pai”. Jesus deixa claro que a adoração não é amarrada a algum tipo de local, tradição. A verdadeira adoração é algo que vem de dentro, e isso fica evidenciado nos versículos 23 e 24. Basta nos lembrarmos da silenciosa oração de Ana (1Sm 1. 13), que pediu a Deus um filho, e pediu no íntimo de seu Ser. Quando nós só recorremos a Deus – e não para outros deuses simultaneamente, como faz a igreja católica – para a solução de nossos problemas, isso é uma forma de adorá-Lo, pois reconhecemos a suficiência de seu poder, misericórdia e benignidade para nos ajudar.

v. 22Talvez achemos que Jesus esteja sendo territorialista ao declarar isso. Porém, não se trata de sectarismo algum. Conforme diz o estudioso Norman Champlin, a expressão “vós” se refere tanto aos samaritanos como aos judeus que não o reconheciam como Deus; e “nós”, aos cristãos.

     E ao dizer que “a salvação vem dos judeus”, Jesus destaca a função histórica de Israel e não ao Israel espiritual.

vs. 23 e 24 – Uma das mais famosas declarações bíblicas em que vemos ser cantadas em diversas canções. “Em espírito, em verdade, te adoramos, te adoramos”. Isso manifesta o caráter interior da adoração. Os judeus costumavam (e ainda costumam) adorar a Deus nas praças, no muro das lamentações, fazendo vãs repetições e gritando suplicas a YHWH. Muitas igrejas que se dizem cristãs seguem o mesmo erro, costumam adorar e clamar aos gritos e com manifestações corporais exóticas.

     Deus não procura performances da adoração. Ele quer que o adoremos em espírito – que o adore com fé, creia que Ele é Deus e galardoar dos que o buscam (Hb. 11. 6) – e em verdade – sendo seu amigo, fazendo o que Ele manda (Jo. 15.14).

v. 25 – Até aquele momento a mulher acreditava que ele era um profeta (v. 19), mas jamais poderia imaginar que estava falando com o próprio Cristo (que significa Messias), aquele que viria libertar judeus e samaritanos das garras do pecado, de satanás, e da morte eterna – e quero crer que se houvesse aceitação e reconhecimento por parte dos judeus de que ele era o messias, os libertaria também do poder dos romanos, já que essa era a maior esperança dos judeus, um libertador político.

vs. 26 – Jesus declara ser este messias. Fico imaginando a mescla de susto e surpresa que aquela mulher teve. Mas o que mais me chama a atenção é o caráter pessoal de Deus: “... eu que falo contigo”. Nosso Deus é um Deus pessoal. Como bem disse Ed René Kivitz, em seu livro “O livro mais mal-humorado da bíblia” (fazendo referência ao realismo de Eclesiastes):


Na tradição espiritual judaica, Deus não se apresenta como 'Deus dos rios, sol e vento', mas sim como 'Deus de Abraão, Deus de Isaque, e Deus de Jacó'. Na hora de se identificar ele escolheu citar nomes de pessoas e não de objetos naturais” (p. 8, 2014).


     Pode nos parecer estranho, mas como pode o criador do universo (com as suas bilhões de galáxias), dos céus, da terra, do mar e de tudo o que neles há, falar comigo? Eu não sou nada perante o universo. O ínfimo dos ínfimos! Mas Ele não apenas fala, como melhor que isso: tem a intenção de iniciar um diálogo conosco.

      Foi o que vimos acontecer com a mulher samaritana (v. 7) e em tantos outros exemplos bíblicos. Portanto, busque-o, mas busque-o de todo o coração, pois o acharão se o buscardes de todo o coração (Jr. 29. 13).





terça-feira, 7 de abril de 2015

REFLEXÕES SOBRE O ENCONTRO DE JESUS COM A MULHER SAMARITANA (Jo. 4. 1-26) - PARTE I


            O episódio se deu quando Jesus retornava da Judeia e se dirigia à Galileia. O deslocamento (forçado) de Jesus se após acompanhar os batismos que seus discípulos faziam na Judeia. A informação havia chegado de forma distorcida aos ouvidos do fariseus, onde acreditavam que ele praticava os batismos.
Para chegar à cidade da Galileia em curto espaço de tempo, era necessário passar pela Samaria (ou Samária em algumas traduções). Nesta região havia uma cidade chamada Sicar, onde havia um poço de importância histórica e simbólica – foi onde Isaque havia cavado e dado ao seu filho Jacó. Neste poço, Jesus, cansado da viagem, sentou-se para descansar e hidratar-se. Mas não apenas isso, creio que ele aguardava chegar a mulher samaritana (da qual a bíblia não cita seu nome) para travar um dos mais emblemáticos diálogos narrados no Novo Testamento.
Para entender ou relembrar a história, basta consultar o texto supracitado. Porém, é necessário lermos essa história fazendo um paralelo entre o fato narrado com a nossa história e idiossincrasias cotidianas. Creio que de uma maneira simbólica (alegórica) podemos contextualizar esse diálogo e fazer uma leitura das entrelinhas do que se passava.
v. 7“Dá-me de beber”. Uma simples expressão denota a iniciativa de Jesus em não apenas iniciar um diálogo, como também de quebrar as barreiras sociais que haviam entre judeus e samaritanos. É um Jesus revolucionário, quebrando os paradigmas sociais – mais uma vez! –, não dando importância ao mau falatório que isso poderia gerar entre os seus discípulos e para todo um povo. Era Jesus demonstrando que não estava interessado com as opiniões alheias à seu respeito. Ele sabia quem era, de onde veio e para que veio; fazia o que tinha de fazer, cumprir com as ordens do Pai, sem temor algum de sofrer retaliações morais e preconceito social.
Mas também nos ensina que, se somos nós os interessados em falar quem é Jesus, de onde veio, para que veio, e o que fez pela humanidade, então nos cabe a iniciativa de um diálogo. Não vamos aguardar que venham nos perguntar – a não ser por mera curiosidade –, pois isso é impossível para os que estão mortos em seus delitos e pecados (Ef. 2.1).
v. 9“Como sendo tu judeu, me pedes a beber a mim, mulher samaritana?”. Percebe-se duplamente introjetado na mulher as barreiras sociais. Não apenas o fato de ser “samaritana”, mas “mulher samaritana”. Bem sabemos que a cultura daquele tempo e região – assim como ainda ocorre em algumas regiões do planeta – as mulheres eram relevadas ao segundo plano; sequer eram contadas. Foi o meio em que ela viveu, viu durante toda sua vida um afastamento social entre o seu povo e os judeus, e não se tratava de um afastamento natural, mas recheada de ódio, brigas e perseguições. Não a julgamos, talvez nós tivéssemos introjetado esse mesmo tipo de sentimento. Sentimento compassivo entre estes povos existia apenas em uma única parábola (o bom samaritano) e mais em canto nenhum.
v. 10“Se tivesses conhecido o dom de Deus...”. Podemos entender este “dom” como sendo ele mesmo (Rm. 5.15), seu poder (At. 8.20), sua graça (Ef. 2.8), ou a vida eterna (Rm. 6.23) – as quatro formas interpretativas não são excludentes! Fico a imaginar o quão diferente seria a reação da mulher ao avistar Jesus, mas na condição de quem sabe sê-lo o dom de Deus. Isso nos faz pensar o quão importante é o conhecimento, e o tamanho de nossa responsabilidade de fazer Cristo conhecido entre os povos. Muitos (membros de nossas igrejas) podem ter ouvido falar de Cristo, mas conhecê-lo plenamente é outra condição completamente diferente, transforma a história de vida de quem passa a conhecê-lo.
Quem o conhece, o trata de uma maneira diferente, e aproveita de sua presença para ser abençoado (e por que não?!). Foi assim com os discípulos do caminho de Emaús, ao perceberem de quem se tratava o “nobre andarilho” que os acompanhavam, não queriam deixá-lo ir. Sua presença é agradável, dá segurança, dá paz, enfim, abençoa!
A mulher samaritana não o tratou de maneira diferente porque não o conhecia. Mas ela estava perdoada, pois não sabia o que fazia (Lc. 23.34). E muitos não o tratam com a devida honra porque da mesma maneira não o conhece. Fazer Cristo conhecido é uma maneira de honrá-lo, dignificar Sua pessoa e seu maravilhoso feito por nós!
vs. 11 e 12 – “Senhor, não tens como tirá-la [...] és, porventura, maior que o nosso pai Jacó... ?” – Pergunta clássica de quem não apenas desconhecia o Seu poder, como de quem tem suas tradições maior do que alguém ou qualquer outra coisa. É a reação típica de quem ainda não conhece a Jesus, não é de se espantar.
Também é a reação clássica de quem não conhece plenamente o poder deste maravilhoso Deus. É, também, a reação de quem confia em suas tradições, quando enxergam que elas nada podem fazer pela sua amarga situação.
- “Senhor, meu problema é grave demais, o poço é fundo! Como é que o Senhor vai tirar uma solução?”.
Quando estamos mergulhados no lamaçal dos problemas da vida, o desconhecimento de nosso Deus e a cor turva da lama (problemas) escurecem nosso campo de visão, ação e emoção. Minam nossas esperanças! O desconhecimento de Jesus Cristo (Deus!) de certa forma incapacita o poder de ação (e reação) Dele. Não se choquem com o que acabaram de ler, mas a fé – etapa posterior ao conhecimento – e a entrega da vida (consequência da fé) são condições primordiais para mudar de vida, nascer de novo! Se os doentes e aflitos que procuraram Jesus não o conhecessem, jamais teriam o procurado para sanar seus males. Mas eles não apenas conheciam, como também acreditaram que não havia poço fundo demais que ele não pudesse buscar a água de suas sedes.
v. 13“Todo o que beber desta água tornará a ter sede”. Jesus não se referia apenas à água do poço, referia-se também às tradições e história daquela mulher, bem como a todas e quaisquer benesses que o mundo possa oferecer. Sabia que todas as benesses da história que construiu as tradições e costumes de seu povo não eram suficientes para matar a sede espiritual daquela mulher.
Muitos são assim. Olham para trás e se orgulham de seus feitos. Chega um tempo em que olharão para trás e não sentirão mais tanto orgulho. Então, para manter seus orgulhos, sempre correrão atrás de novos feitos que sirvam de lenitivos para a sua alma, e isso vira uma cadeia de dependência sem fim; ou seja, sempre tornarão a ter sede!

v. 14“Aquele que beber da água que eu lhe der nunca terá sede...”. “Longe esteja de mim gloriar-me, a não ser na cruz de Cristo” (Gl. 6.14); “tenho também como perda todas as coisas ‘pela excelência do conhecimento de Cristo’ [...] as considero como esterco...” (Fil. 3.8). Eis a diferença de quem já conheceu plenamente a Cristo!! Não há história, tradições, vitórias na vida que possam satisfazer sua sede! Somente “pela excelência do conhecimento de Cristo” é que se pode matar definitivamente a sede do homem. Quem bebe (conhece e crê) jamais terá sede! Muito mais que isso: tornar-se-á uma fonte que jorrará esta água, ou seja, passará a fazer Cristo conhecido na vida de muitos – não só através de palavras, mas, sobretudo, no comportamento –, tornando-se o pai na fé de muitas vidas.

quinta-feira, 2 de abril de 2015

A HUMANIDADE FRACASSOU, O CRISTIANISMO TAMBÉM!


A imagem que corre os diversos tipos de mídias, de uma menina Síria (Hudea, 4 anos) de braços levantados, rendendo-se ao confundir a câmera com uma arma, registrada pelo fotógrafo turco Osman Sagirli, em 2012, é caricatural! Emblemático! Descreve com perfeição o fracasso humano.
O Ser humano, ao longo de sua existência, aprendeu vários ofícios, desenvolveu a ciência nos diversos campos que abrange o melhoramento da vida humana, mas, ainda assim, não sabe ser Humano.
Sempre queremos culpar ao que está fora de nós (complexo de Eva), como motivação maior à degradação moral em que sempre viveu a humanidade – não é particularidade de nossa época. Os esquerdistas de plantão estão sempre prontos a vociferar que a culpa é do Capitalismo, que os humanos nascem neste sistema econômico e ideológico, se amoldando ao estilo de vida consumista, corroborando para o aumento do egoísmo no mundo. Vários foram os sistemas econômicos antes do capitalismo e nada mudou. Nem piorou. A humanidade continua falhando no seu projeto de ser Humano. Aliás, poucos homens projetaram seguir à risca alguns projetos que tentaram humanizar o homem – sejam eles oriundos de correntes ideológica, filosófica e/ou religiosa. Todos sem sucesso. Sobretudo (e todos), o cristianismo. Digo para a vergonha minha.
Meu cristianismo é superficial e mercadológico. Não tem competência moral para julgar o mundo de hoje, nem de outrora, pois ajudou a piorar a situação da humanidade ao longo de suas cruzadas e colonizações. Precisaria Cristo voltar mais uma vez para corrigir aquilo que os seus seguidores desfizeram, mas não em Seu Nome. Os seus poucos e verdadeiros seguidores (que ainda existem, acreditem!) e que aprenderam e praticam seus ensinos e conselhos, são de quantidade irrisória, irrelevantes para transformar o mundo. Precisariam ter o poder e a mente de Cristo para obterem êxito.
Não há fé suficiente para fazer as “obras maiores que do que eu faço” (Jo. 14.12), nem pleno conhecimento acerca de Cristo para possuirmos a sua mente (1Co. 2.16). A igreja faliu! Como tudo na vida, começou bem, mas não apenas piorou ao longo de sua jornada, como tornou-se o anverso de sua essência.
Que a humanidade fracassou, não me surpreende, mas o cristianismo tornar-se seu próprio antídoto, isso me fere e envergonha.

quinta-feira, 12 de março de 2015

EM PRIMEIRA PESSOA




Perdi a capacidade de pensar. Já fui inteligente, eu sei. Estou totalmente destreinado para a atividade de pensar. Não consigo ter a mesma visão de mundo, atrofiei. O que antes saía naturalmente, hoje demora; e quando a ideia nasce, nasce atrofiada.

sei falar de mim, pura prova de que não sei mais falar de nada exterior a mim. Sinto o desejo de escrever, mas só sai na primeira pessoa. Estou preso em mim, porque nunca me libertei para o que está fora de mim. Não sei se isso é bom ou ruim. Se uma fase, ou egoísmo. Acho que egoísmo. Uma forma mínima de egoísmo, mas não deixa de ser. 

Isso mostra meu vazio intelectual, minha pequenez, minha limitação. Não sirvo para nada, não sei de nada.

Quando quero falar de algo exterior a mim, isso se torna sacrificante, pesado, me deixa amargurado. Típico pós-moderno, preso em seu mundinho, cuidando das fronteiras de sua ilha e destruindo os binóculos que avistava a solidão alheia.

Até quando falar de mim ajudará o próximo? Seres vazios não ajudam, não tem nada para ensinar. A bem da verdade, eu preciso de ajuda. Não consigo me libertar de meu vazio.

Cristo foi altruísta, porque tinha o que ensinar. Aquele que tem conteúdo ensina; quem não, porque não há conteúdo suficiente para ensinar. Cristo ensinou e não cessou de ensinar. Uma fonte de conhecimento e sabedoria. Tudo o que me falta.

Procurei meios institucionalizados e alternativos para iniciar os passos deste caminho, mas não tem jeito... “volta o cão ao seu vômito, e a porca lavada volta a revolver-se no lamaçal”.

Quanto mais me aprofundo, mais me perco e conclusão alguma chego a respeito de nada e nem de mim mesmo. Nada de útil flui de mim. Nem para falar de mim mesmo sirvo. Isso me angustia e sequer me molda. Beirando à depressão.

Chegar a tais conclusões me deixam sem ânimo e me direcionam para as derrotas da vida. Talvez a única serventia seja me preparar para o pior.

Vejo os vitoriosos que me cercam e contemplo neles um olhar para fora de si, sempre se lançando para algo que contribua com o bem estar social. Tomei o caminho inverso e não consigo arrepender-me. Não deveria existir. Quem não contribui, que não viva!

terça-feira, 10 de março de 2015

Episódios





“Um episódio não é a consequência inevitável de uma ação precedente, nem a causa do que virá em seguida” (Bauman in Kundera, 2004, p. 70)*.

Esta frase me parece por demais generalizante. Não creio que os fatos sejam dissociáveis de experiências de outrora. Há, óbvio, no cotidiano, ações – ou mesmo discursos – não concatenados com fatos precedentes, por mais que isso possa contrariar os materialistas históricos e analistas de discursos. Porém, generalizar é um erro gritante.

Creio que somos aquilo que construímos, mesmo à contragosto e longe do que idealizamos para nós. Nossos atos dizem mais de nós àquilo que pensamos de nós. Somos nossos rastros nos vários terrenos pelos quais passamos. Não compactuo com a ideia de que somos o “agora”, e que as experiências passadas construiu-nos; não dissocio o “fomos” do “somos”, apenas somos. Alguns hábitos podem ter sido deixados para trás, pensamentos à respeito de assuntos pontuais e exclusivos podem ter sido substituídos pela posição antagônica – ou mesmo radicalizados –, e quiçá a própria essência do caráter tenha sido significativamente transformada. Porém, ainda assim, somos.

Somos as várias máscaras que vestimos ao longo da vida; elas podem ser exteriores a nós, frutos da determinação sócio-cultural, ou mesmo da desigual luta contra essa macrodeterminação, afinal de contas somos seres históricos – locais, finitos e temporais – mas também podem ser máscaras construídas, como uma maneira de encarar a realidade.

Destarte, os episódios são o terreno que calçam nossa existência. Muitos são construídos (forjados), outros nos surgem de supetão e exigem de nós uma resposta imediata, que certamente virá de acordo com as experiências construídas, ou seja, daquilo que fomos lá trás e que novamente seremos no presente – mesmo que de maneira diferente de outrora, levando em conta as lições aprendidas.

* Bauman, Zygmunt. Amor líquido - sobre a fragilidade dos laços humanos. Rio de Janeiro: Ed. Zahar, 2004.