segunda-feira, 11 de abril de 2016

O Pós-modernismo e o Abandono

1 João: 2. 19 - "Saíram dentre nós, mas não eram dos nossos; porque, se fossem dos nossos, teriam permanecido conosco; mas todos eles saíram para que se manifestasse que não são dos nossos".

Chama-me a atenção como este verso tem se tornado real com o passar dos séculos. Quando o apóstolo João o escreveu, foi entre os anos 85 e 90, em Éfeso. Porém, à medida que se passam os séculos, temos visto essas palavras se tornarem realidades no seio do Corpo de Cristo.

Podemos contemplar este verso em duas esferas: macro e micro. Macro, considerado mais agressivo, diz respeito ao abandono de Cristo e dos seus ensinos; e micro, trata do abandono da igreja (entendida aqui como comunidade) a qual fez parte - e quiçá ajudou em sua construção -, e que foi alimentada por ela por longos anos, descartando-a de maneira vil tempos depois. É desta última esfera que quero tratar.

Quando nos remetemos à história do pensamento ocidental, temos visto o crescimento da relativização em todas as esferas de nossa vida. Fazendo um recorte histórico, observa-se o Renascimento como o período onde iniciou-se a "moda" do relativismo. Isto porque foi através dele que rompeu-se com o pensamento medieval.

 No entanto, temos visto o recrudescimento do Relativismo com o passar das épocas (passando pelo iluminismo, revolução industrial, pensamento moderno e, o atual pós-modernismo). Tal relativismo tem se tornado mais nocivo hodiernamente, pois não apenas os pensamentos têm sido relativizados, mas os sentimentos também.

 Conceitos ancoradouros e norteadores da vida tais como o amor, amizade, fidelidade e enraizamento histórico têm perdido seu valor. Tal perda tem sido acompanhada pelo aumento do individualismo, da depressão, do remorso, das inimizades, rancores etc., e muitos estudiosos da psiquê humana tem declarado acertadamente que se trata de características da Pós-modernidade.

Temos visto o relativismo adentrar nossas igrejas. Ser igreja (doutrinariamente imaculada) em tempos pós-modernos é difícil. A igreja de Cristo tem sido bombardeada pelos modismos que têm surgido e arrebanhado multidões de massas que, diga-se de passagem, nunca foram, não são, e não querem ser leitores (e estudiosos) afincos das Sagradas Escrituras. São totalmente aversos à leitura da bíblia, trocando-a pelo modismo gospel, que, ao invés de contribuir para o crescimento do Reino de Deus, têm tornado-o doente e banalizado. Surgiu para alimentar desejos reprimidos por gostos musicais diversos e, óbvio, faturar com isso - não é novidade para ninguém o interesse mercadológico por trás da indústria fonográfica gospel. Estão mais interessados em servir à  música (em si) do que ao Reino, fazendo daquela o seu deus.

O relativismo os dominam a tal ponto que, há muito, se tornaram antropocêntricos. Escolhem a igreja que melhor se adequa aos SEUS gostos e interesses: liturgia, música, quantidade de pessoas - aumentando com isso a probabilidade de se fazer novos amigos -, existência ou não de classes que atendam a todos da família etc. Enfim, não existem para servir, mas para serem servidos. Não se dispõem a contribuir para o crescimento e fortalecimento de suas comunidades, pelo contrário, querem tudo pronto, tal como um suco em caixa nas prateleiras dos supermercados, pronto para o CONSUMO. Aliás, a facilidade e a praticidade é uma das características do pós-modernismo; faz parte do processo de fragilização do homem atual a busca pelo mais fácil. Da mesma forma que procuram produtos práticos para o consumo, assim fazem na escolha de uma igreja, tornando-a mais um produto para o consumo, que satisfará seus desejos e caprichos.

Repito: ser igreja (sadia) nos dias de hoje tem sido difícil. Temos visto uma parcela significativa das igrejas que se dizem evangélicas prostituirem-se doutrinária e liturgicamente. Atraem "clientes" (com o codinome de "fiéis") através das estruturas arquitetônicas, musicais, numéricas de membros e congregados, dentre outras, usando tudo que tem ao seu alcance para fazer de iscas, no intuito de pescar seres espiritualmente frágeis que não se dispõem a estudar a bíblia e assim aprenderem os perigos inerentes de tais comunidades prostituidas doutrinária e liturgicamente, que transformam seus cultos os mais parecidos possíveis com shows (e ainda dizem, dissimuladamente, ser o melhor para Deus!).

É, amados, ser igreja pequena em tempos pós-modernos não é fácil - assim como devo imaginar que não foi fácil ser um dos 300 escolhidos por Gideão!

Por fim, só permanece quem quer servir, e não ser servido; aqueles que tem consciência que a igreja deve ser cristocêntrica e não antropocêntrica; aqueles que se dispõem a mortificar o seu EU em detrimento ao Reino de Deus, limpo, imaculado e não prostituido. Nunca é tarde para repensarmos nossas escolhas!

Justiça como punição, ou prevenção?

Mateus: 1.19 - "E como José, seu esposo, era justo, e não a queria infamar, intentou deixá-la secretamente."

Me chama a atenção a concepção de justiça neste verso. Eu mesmo confesso que "justiça" seria pôr a boca no trombone e espalhar aos quatro cantos da terra o mal que me fora feito, para que todos saibam a espécie de mulher que ela fora e o mal que me causara. Seria uma espécie de punição pelo mal cometido; uma forma de não permitir que a impunidade impere.

Nosso senso de justiça baseia-se mais pela punição do que pela prevenção. Achamos justo quando um meliante recebe a sentença, mas não achamos que seja justiça dá-lo as condições necessárias - sejam elas objetivas (materias) e/ou subjetivas (psíquicas) - para uma boa vivência neste mundo. Achamos justo a aplicação da pena, mas não achamos justo conceder os meios de livrá-lo da condenação.

E foi o que José fez com Maria, concedeu-lhe uma maneira de não submetê-la à pena da infâmia e do vexame perante a sociedade. Concedeu-lhe "oportunidade", considerada por mim como a maior forma de justiça que se possa dar a alguém.

Quando falamos que nossos governantes e sociedade são injustos, assim dizemos  mentalizados na corrupção que lhes são inerentes; mas não falamos pelas oportunidades usurpadas, pelos mesmos,  dos menos favorecidos. Estes lutam em condições desiguais, são violentados pela própria sociedade, e esta ainda exige daqueles o mesmo desempenho dos abastados (que nasceram cercados de oportunidades), o que, ao meu ver, trata-se de mais uma violência velada, uma violência subjetiva dantesca! Se não atingirem os mesmos patamares de vida dos filhos da elite é porque são fracos, incompetentes e preguiçosos!

Uma luta só pode ser considerada justa quando todos estão em condições iguais de lutarem. A elite política de nossa sociedade (e não apenas esta!) é covarde à medida que não permite a igualdade de condições de luta da sociedade COMO UM TODO. É o meio que encontram de manter os seus sempre no topo da pirâmide.

Voltando ao texto bíblico, José até teria o direito (legal) de iniciar a luta pelo julgamento da sociedade, sobre a possível traição, de maneira desigual; era só narrar o fato de que Maria estava grávida mesmo antes de conhecê-la - o que não era nenhuma mentira. Porém, ele bem sabia que não teria o direito (moral) de iniciar a luta de maneira desigual. Sabia da necessidade de concedê-la a oportunidade de explicar-se à sociedade sem antes contaminá-la (a sociedade) com seu pré julgamento.

Que possamos, assim como José, conceber "justiça" como prevenção e não apenas como punição.

sexta-feira, 12 de fevereiro de 2016

A DECISÃO DE DANIEL

Daniel, contudo, decidiu não se tornar impuro com a comida e com o vinho do rei, e pediu ao chefe dos oficiais permissão para se abster deles” (Daniel 1.8).



     Pessoas decididas sempre me fascinaram. Embora eu não seja tão enfático em minhas decisões – considero-me mais maleável –, pessoas decididas demonstram mais respeitabilidade e impõem mais respeito. Essa constatação adquiri através das várias experiências de pessoas fortes em suas decisões que pude conhecer. Doa o que (e a quem) doer, não estão interessados na autoimagem perante a opinião pública, na quantidade de amigos que porventura possam perder ao manter uma opinião, ou mesmo ideologia. Suas opiniões valem mais que amizades e o próprio bem-estar.

        Hodiernamente, temos visto o debate e a defesa maciça que os meios de comunicação têm feito sobre o homossexualismo. Enojo-me dos que se dizem cristãos passarem para o “lado de lá”. Estes demonstram que nunca estiveram interessados na defesa do evangelho; usam-no simplesmente como um meio de adquirir destaque ao emitirem uma opinião heterodoxa no que diz respeito ao homossexualismo, num ambiente contrário ao mesmo. Estão mais preocupados com seus egos. São os “adoradores” do próprio estômago, dito em Filipenses 3.19: “sentem orgulho do que é vergonhoso; eles só pensam nas coisas terrenas”. Pessoas assim estão mais preocupadas com a autoimagem… “dane-se o evangelho”, comunicam eles com suas atitudes.

        Quando olho para a história de Daniel, vejo alguém que tinha tudo para se dar bem na vida. Dar-se-ia bem no plano material (leia-se: econômico), intelectual (poderia muito bem viver com a vaidade intelectual sempre em alta, pois já era considerado “culto, inteligente e que dominava vários campos do conhecimento” (cf. v. 4)), e social (tinha boa aparência e, pelo fato de viver com – e para – o rei, gozava de certos privilégios).

         Porém, Daniel não enxergava nada disso. A ideologia que o habitava era maior que as benesses que estavam postas diante dele. Sua atitude afirmativa tinha uma fonte: seus princípios. Ele não fora ensinado a duvidar do que lhe ensinavam durante toda sua vida, por isso, estavam enraizados nele; eram-lhe mais valiosos que o ouro puro de Ofir.

         Percebe-se que poderia soar mais intelectualmente proveito – e vaidoso! – para Daniel confrontar os ensinamentos recebidos de seus pais e antepassados. Isso poderia demonstrar, para sua sociedade, a capacidade de crítica, de procurar antíteses e provas materiais e científicas contrárias aos ensinos, enfim, manter uma postura cética. Certamente que a sua intelectualidade seria mais acentuada e, quiçá, respeitada. Nossos tempos são tomados de tamanha vaidade bestial com o pseudônimo de “postura científica”!

     Mas não era com a autoimagem que Daniel se preocupava. Não se importava com o risco de parecer ter uma mentalidade tacanha. Seu compromisso com Deus e com os ideais era-lhe mais honroso, mesmo que não fosse compreendido por ninguém, e por isso não aceitou as iguarias do rei.

     Quando lemos a História geral, principalmente do renascimento até os nossos dias, percebemos que as iguarias (comida e vinho) do “deus deste século” (Cf. 2Co. 4.4) resumem-se numa só coisa: vaidade. Ela está por todos os lugares, inclusive, para infelicidade nossa, nas igrejas. O princípio ativo do veneno criado pelo deus deste século para cegar o entendimento dos “cristãos incrédulos” é, sem sombra de dúvidas, a vaidade. Ela impede o resplendor da luz do evangelho na sua essência! Não à toa que em João 12.24, o próprio Cristo nos diz que faz-se necessário o grão morrer para dar muitos frutos; mortificar nossas vaidades e planos pessoais que, diga-se de passagem, sempre são feitos para o nosso próprio engrandecimento!

       Mas, para estes “cristãos incrédulos”, o mais importante são seus planos e, óbvio, sua autoimagem. Os vemos defender o homossexualismo, o macroecumenismo, a não ressurreição de Cristo, a cobiça como “algo natural”, a volúpia (que se contrapõe à sabedoria ensinada em Provérbios), a libertação sexual, e não nos surpreendamos em vê-los defender coisas mais horrendas que estas, sempre travestidos de “sabedoria”. Percebam que a sabedoria mundana sempre consistiu numa só coisa: destruir a criação e os princípios divinos! Foi exatamente isto que queria fazer Nabucodonosor com Daniel e seus amigos.

        Porém, Daniel propôs em seu coração não se tornar impuro. Tal pureza o fez ter o discernimento necessário para enxergar que a “sabedoria” mundana só estava trazendo destruição moral, espiritual e material em sua sociedade; ele pôde ver o mal que a religião, os costumes e até mesmo a própria ciência babilônica estava trazendo ao seu tempo.

       Será que temos o mesmo grau de pureza de Daniel para enxergarmos a destruição que o deus deste século tem feito com os nossos dias e com a própria igreja? Será que a(s) vaidade(s) não tem reinado em nosso coração, ao ponto de contristar o Espírito Santo e de se lhe tornar inimigo (Cf. Is. 63.10)? Lembremo-nos: Quem ama a sua vida [seus planos e vaidades], perdê-la-á; e quem neste mundo odeia a sua vida, guardá-la-á para a vida eterna” (Cf. Jo. 12.25, grifo meu).



segunda-feira, 21 de dezembro de 2015

A Verdadeira riqueza!

Vocês nunca saberão o que é riqueza até…
Ver Deus exortá-los…
Se sentirem arrependidos dos seus pecados…
Perdoar aos que os tem ofendido...
Sentir seus pecados sendo perdoados…
Ver que suas orações foram respondidas…
Ver Deus aconselhando-o…
Ver Deus prometendo bênçãos sobre suas vidas…
Ver Deus restaurar a sua vida...
Saber que Ele está perto dos que o buscam de todo o coração…
Saber que Ele se importa com você...
Sentir que é amado por Ele…
Entender que o sacrifício de Jesus foi feito para ele...
Ser salvo por Ele.

Ó profundidade da riqueza, da sabedoria e do conhecimento de Deus! Quão insondáveis são os seus juízos, e quão inescrutáveis os seus caminhos!” (Romanos 11.33)

Breve meditação em Ezequiel 18. 21-32

segunda-feira, 7 de dezembro de 2015

A TEOLOGIA DO COTIDIANO




Antes, gostaria de deixar claro que a teologia em epígrafe é uma expressão que tenho pensado e utilizado nos últimos dias. Qualquer similaridade é pura coincidência – digo isto com sinceridade; sequer me dei ao trabalho de pesquisar no google se já existia… não queria perder o sentimento de protagonismo (rsrsrs...).

   Numa conceituação primordial, é, dentre outras coisas, uma leitura (e sua interpretação inerente) da própria vida, das experiências espirituais individuais acumuladas, e da realidade que o cerca, à luz da escrituras sagradas – e longe das interpretações das grandes escolas teológicas existentes. É uma maneira de estar vigilante em todo tempo, sempre atento aos acontecimentos e diálogos do cotidiano, confrontando-os ao que a bíblia lhes diz sobre os fatos, aceitando-os ou rejeitando-os.

  É, também, uma maneira de manter-se sensível ao próximo, sempre procurando entender suas peculiaridades, seu histórico (se oportunidade houver!) e no que este influenciou em seu pensamento… enfim, interpretá-lo. Esta sensibilidade é mais do que compreendê-lo (compreensão dá uma conotação fria, distante e impessoal), é senti-lo. A Teologia do Cotidiano (TC) nos devolve a capacidade de sentir a dor do próximo como a nossa própria (Mt. 22. 39).

   Mais do que isso, a TC deve nos devolver a capacidade de respeitar o próximo; respeitar suas idiossincrasias, seus trejeitos, seus pensamentos e sentimentos, sua leitura da vida, enfim, respeitá-lo por completo.

  Destarte, é uma maneira de olhar o mundo, interpretá-lo e senti-lo com os olhos espirituais exclusivamente, desprezando o olhar crítico dos “pré-conceitos”, e dos diversos pressupostos das ciências humanas e sociais.

  Sei que isso pode gerar críticas por teólogos diversos, pois isso geraria uma espécie de teologia individualizada, frágil, fragmentada, desconstituída do crivo das grandes escolas teológicas já estabelecidas historicamente – que hoje nos servem como referenciais. Argumentariam, com a devida vênia, que isso abriria caminhos para surgimentos de discrepâncias teológicas, ou, para os adeptos de teorias da conspiração, a falência do corpo doutrinário e, conseguintemente, das denominações cristãs – pois não haveriam mais identificação de pessoas que comungam dos mesmos ideais. Para aquela, reconheço, há o perigo; porém, para esta, creio não haver o perigo pois, historicamente, a igreja de Cristo, desde sua fundação com os 12 discípulos, fez e faz uma leitura espiritual do cotidiano baseado em suas experiências espirituais individuais com Cristo. Basta ver os discípulos que romperam por completo com as tradições judaizantes, e outros que mantiveram. Pedro, após uma experiência individualizada com Cristo, mudou por completo com sua concepção à respeito dos gentios; e Paulo, embora reconhecendo a importância de algumas leis cerimoniais e tradições judaicas, baseado também em sua relação pessoal (individual) com Cristo – daquilo que o Espírito lho falou –, desprezou-as como significativas para fins salvíficos. Já Tiago, segundo Corrado Augias e Mauro Pesce, manteve seu posicionamento da necessidade da circuncisão entre os gentios, ao converterem-se ao cristianismo1.

   Embora as experiências individuais com Cristo estejam no âmago da TC, faz-se necessário deixar bem claro que isso não significa uma substituição às sagradas escrituras, nem mesmo uma outra forma comunicacional de Deus para o homem – a bíblia já cumpre muito bem este papel!2 –, mas uma maneira real de relacionamento do Espírito Santo com a nossa cognição (e, de maneira mais profunda, com nosso inconsciente).

   É justamente esta relação que fará toda a diferença em nosso maneira de olhar o mundo.

1 Embora este posicionamento não tenha fundamento na Carta de Tiago, mas é a interpretação dos autores citados, em seu livro Diálogo sobre Jesus – quem foi o homem que mudou o mundo? da Editora Bertrand Brasil, 2011.

2 Cf. Hebreus 1. 1,2.

sexta-feira, 20 de novembro de 2015

EM QUE SE BASEIA SUA FELICIDADE?



Mesmo não florescendo a figueira, não havendo uvas nas videiras; mesmo falhando a safra de azeitonas, não havendo produção de alimento nas lavouras, nem ovelhas no curral, nem bois nos estábulos, ainda assim eu exultarei no Senhor e me alegrarei no Deus da minha salvação” (Profeta Habacuque cap. 3, vs. 17, 18).

Não é preciso dizer que é um grande desconforto não ter suprimentos em tempos de crise. Somado ao desconforto, recai sobre nós um sentimento de impotência, vulnerabilidade, vergonha e decepção consigo mesmo. Isso se intensifica quando estamos fragilizados espiritualmente, onde, como corolário desta fragilização, as benesses materiais se sobrepõem às espirituais.

Se pararmos para pensar, em toda a trajetória de nossas vidas fomos mais abençoados que amaldiçoados. Se chegamos à idade que chegamos é porque Deus, em todo esse tempo, nos amou, alimentou, vestiu, protegeu, abrigou, e nos deu motivos para sorrir. Porém, nos esquecemos deste óbvio ululante quando somos assaltados por alguma desgraça – seja ela em apenas uma ou mais esferas de nossas vidas. Em momentos assim, tornamos o “agora” como base interpretativa de toda a nossa vida. É como se a desgraça do agora fosse o resumo de toda uma vida; num estralar de dedos nos esquecemos de toda uma gama de bênçãos.

Foi assim com o povo hebreu na travessia do deserto, está sendo com alguns cristãos atuais, e sempre continuará a ser, infelizmente.

Porém, a felicidade do profeta Habacuque nadava contra a maré emocional de todo um povo. É natural termos nossa felicidade afetada pela tristeza coletiva; podemos ver isso nos dramas – para não dizer tragédia – em Mariana-MG (nas cidades adjacentes e não apenas!) e Paris. Contudo, sobrenatural é não se contaminar com a tristeza e a leitura da vida que a coletividade faz da mesma, sempre baseada nas circunstâncias. O termo “ainda” deixa claro que a desgraça econômica – a atividade agropastoril era a base econômica à época da declaração – não se abateu na vida do profeta. Ainda é uma condição de possibilidade, sinônimo de “mesmo que”. Mesmo que a desgraça acometesse a vida do profeta, seu espírito estava pronto para enfrentar tais intempéries. Isto porque sua felicidade não estava mirada nas benesses materiais, mas tão somente naquilo que muitos crentes simplesmente esquecem: a salvação.

A cruz de Cristo para estes nada dizem. O sacrifício vivo na cruz do Calvário, a eleição incondicional, o favor imerecido (graça), a vida eterna, as misericórdias, enfim, todas estas manifestações do amor de Deus não são as condicionantes que os levam ao culto dominical. Vão para agradecer as bênçãos recebidas durante a semana e para pedir pela vindoura. É como se dissessem na prática: “a salvação para nada importa, desde que Ele me dê condições de suster minha família, e conservem todos com saúde e paz”. Se fossem valorar as bênçãos de Deus, a salvação seria a moeda de 1 centavo, e por dois motivos: não tem valor, e por não mais existir (A Casa da Moeda não mais produz). Há muito que desapareceu dos corações dos crentes – de outrora e hodiernos – o verdadeiro sentido de felicidade e, de longe, a maior motivação de culto: a alegria da salvação.


Quanta mediocridade! Quanta pobreza! Que cegueira terrível! Se todos os cristãos mantivessem a alegria em meio à crise, seria como uma luz que alumia uma cidade inteira. Um testemunho vivo de que a verdadeira felicidade está em Cristo e não nas circunstâncias.

terça-feira, 17 de novembro de 2015

Televisão: o controle ainda é seu

Entrevista solicitada pelo jornalismo do Jornal Show da Fé, da Igreja Internacional da Graça de Deus. Trechos da entrevista foram publicados na Edição Nº 116 do Ano 10, de Setembro de 2015.

Como a televisão é vista hoje? Até que ponto ela dita padrões de comportamento/personalidade/crença?

De umas três a quatro décadas para cá – quando ela passou a ser um bem de consumo possível nas casas das classes menos favorecidas economicamente – a televisão tem exercido um papel antagônico na vida da sociedade. Através dos telejornais, isto quando há a imparcialidade
jornalística (tão discutida pelos cientistas sociais, e rechaçada pelos ideólogos de esquerda), podemos vê-la desempenhar um papel fundamental na vida da sociedade como uma disseminadora da informação, um meio democratizante e eficaz de oferecer informação a todas as classes sociais num curtíssimo espaço de tempo, e com o potencial de atingimento em (quase) todos os espaços geográficos, quer sejam urbanos e rurais.

Porém, através dos seus núcleos de entretenimento, temos visto desempenhá-la um papel transgressor no que tange aos padrões ideológicos (que, em si, já engloba o comportamento e personalidade) da sociedade. É certo que já virou uma retórica caricatural dos defensores da cultura midiática a relativização dos padrões valorativos vigentes numa sociedade. Apegam-se à relativização para construírem seus discursos em prol da imparcialidade cultural, ou seja, ao fato de que manifestações artístico-culturais devem ser livres, não podendo estar sob a égide de padrão algum – sejam eles morais, filosóficos e religiosos. Atrelado a isto está a máxima constitucional da liberdade de expressão – vista nos artigos 5o, parágrafo IX; e 220 § 2º.

No entanto, não é necessário que sejamos experts em História das Artes para sabermos que, historicamente, nenhum tipo de arte, tais como pinturas, literatura, gastronomia, teatro, escultura, música e etc., foi isenta de algum padrão valorativo, filosófico, e, em alguns casos, religiosos; mesmo as manifestações artísticas que pareciam estar à frente de seu tempo tinham um viés contracultural, de transgressão aos padrões de seu tempo, comunicando, com isso, sua crítica aos status quo.

Apegado a esse discurso de relativização e liberdade, os diretores de telenovelas, filmes, e programas diversos (humorístico, de entrevistas (com ou sem auditórios), e até mesmo outros de assuntos mais específicos como esporte, automobilística, moda, e etc.), tem todo o espaço necessário para aspergir na sociedade valores (muitas vezes religiosos!) e comportamentos que sejam do interesse dos proprietários das diversas redes e sistemas televisivos. Desta feita, se torna extremamente prático transgredir alguns valores sociais e defender-se com a relativização de absolutamente tudo. Como exemplo, podemos ver em tempos de carnaval, numa determinada emissora brasileira, um quadro contendo uma mulata seminua, de corpo escultural, dançando sensualmente, sendo transmitida repetidas vezes ao dia, em todos os horários do dia – assistido por todo tipo de público, inclusive crianças. Dizer que isso é uma manifestação da arte carnavalesca e que, se alguém ver nisso um culto à sensualidade o problema estará nos olhos de quem vê, é, no mínimo, a maior de todas as relativizações da mídia televisiva em nosso país.

Outro exemplo está na massificante propagação da ideologia de gênero. Temos assistido a mídia como um todo – e não só a televisiva! –, utilizando-se de todos os seus meios possíveis (programas diversos e intelectuais ao seu serviço), convergindo para a naturalização das ideias de gênero. Ou seja, é querer relativizar aquilo que foi estabelecido naturalmente, biologicamente. Macho e fêmea, segundo seus ideólogos, não é mais visto como algo natural (objetivo), mas subjetivo. Isso, ao meu ver, se constitui como a mais atual tentativa de transgressão ideológica imposta pela mídia. Ah, e um detalhe: todos os valores sociais que boa parte da mídia tenta e, infelizmente, está conseguindo destruir, são justamente aqueles que o cristianismo contribuiu para a formação da sociedade, sobretudo a ocidental, tais como a indissolubilidade do casamento, o casamento monogâmico e
heterossexual, a atividade sexual após o casamento, o comportamento não violento, o contentamento material com o básico – que vai de encontro ao comportamento consumista também difundido pela TV –,... por que será?!

Podemos dizer que o indivíduo fica indefeso diante da tv? Por que?

Não creio que haja uma total “subserviência mental” diante da TV, mas admito que, nas pessoas que não tem um senso crítico elevado, a suscetibilidade aos padrões comportamentais difundidos pela TV tenha uma influência bem maior. Sabemos que a educação – não apenas a escolar, mas sobretudo a
familiar e a religiosa – tem um papel preponderante para tornar o indivíduo mais crítico, mais sensível, sábio no sentido do termo, incutindo nele a capacidade de peneiramento de tudo o que se passa a sua volta. Hoje, mais do nunca, vemos a necessidade da boa manutenção da estrutura familiar para o adquirimento e desenvolvimento deste senso crítico. Isto porque temos assistido em nosso país – e na maioria dos países em desenvolvimento – um sistema educacional descomprometido em tornar o indivíduo um melhor cidadão, ciente de seus deveres.

O sistema pedagógico nacional tem sido voltado somente ao conhecimento técnico, tudo em nome do desenvolvimentismo científico e econômico do país, numa clara demonstração da visão de uso e desuso que o próprio país tem de seus cidadãos. Em outras palavras, a mensagem que o Estado nos dá é: desde que seus conhecimentos e habilidades faça nossa nação crescer, e também desde que não provoque nenhuma desordem social, pouco me importará seu senso crítico! Diante deste cenário de “deseducação institucional”, criado pelo próprio Estado, e substanciado pela crescente desestruturação familiar que vemos no mundo – que fica evidenciado no grande número de divórcios, de violência doméstica, e de pais que pouco se relacionam com os filhos –, é de se esperar mais indivíduos suscetíveis às influências comportamentais da TV. Como bem diz o adágio popular: “quando a família não educa, a TV educa”.

Para que tipo de sociedade estamos caminhando digerindo o que a tv nos mostra por meio de sua programação/comercial?

Os padrões estereótipos de vida que a TV tem nos ensinado, manifestada principalmente pelos seus núcleos de entretenimento, tais como novelas, filmes e outros tipos de programas do ramo, são bastante elevados para a sociedade, o que requer dela uma postura mais nociva a si mesma. Para atingir os status apregoados por ela (TV), é necessário que o indivíduo assuma uma postura mais consumista, egoísta, hedonista, competitiva, e mais recentemente, através das redes sociais, “midiática”, ou seja, é preciso que seu sucesso seja visto por todos; e este sucesso quase sempre está atrelado à conquista de algum bem material ou cultural (viagens e títulos, por exemplo), mesmo que isso o leve a um alto grau de endividamento. Tudo vale para se enquadrar aos padrões televisivos! Abster-se de relacionamentos sadios e estáveis (aquelas que não provocam grandes emoções à vida, pouco picantes!) para socializar-se com pessoas de comportamentos transgressivos, ser o que não é, e possuir o que não pode.

Desta feita, a sociedade torna-se vítima e algoz de si mesma, num círculo vicioso onde ela mesma não é capaz de curar-se. E neste processo de desintegração social, a mídia televisiva tem uma parcela significativa de culpa, pois difunde como pouco importantes, até mesmo para satisfazer os interesses de seus patrocinadores, os papeis e estilos comportamentais que não são “vendáveis”. Me embasando em Zygmunt Bauman, polonês, um dos grandes teóricos da sociologia contemporânea, comportamentos assim são “despidos de valor numa sociedade treinada para medir os valores em
dinheiro e para identificá-los com as etiquetas de preço colocadas em objetos e serviços vendáveis e compráveis. São empurradas para longe das atenções do público (e, espera-se, dos indivíduos) ao ser eliminada dos cômputos oficiais do bem-estar humano”*.

Vivemos em tempos de fragilidade dos laços humanos, de liquidez de nossas emoções e por consequência dos relacionamentos. Os valores duradouros, que sobreviveram a séculos, que elevaram a condição humana a um maior patamar de desenvolvimento humano e social, tais como os
ensinados e praticados pelo judaísmo e cristianismo, logo são substituídos por padrões novos, que nunca tiveram uma comprovação histórica anterior para se mostrar superior. Os valores históricos que ultrapassaram séculos logo são taxados de obsoletos, e substituídos pelo novo, que não sabe-se suas consequências. O perigo desta substituição é que, historicamente, quando padrões ideológicos são substituídos numa sociedade, desprezando o velho em detrimento do novo, as consequências foram devastadoras. Foi assim com o nazismo, fascismo(s), socialismo e comunismo. Um novo que prometia a liberdade e prosperidade da nação, mas que teve o efeito inverso, inclusive com a morte de milhões de seus próprios cidadãos. 

Creio que os marqueteiros da televisão, considerados por muitos como “engenheiros sociais”, devam repensar suas responsabilidades perante a sociedade. Devem analisar criteriosamente quais os efeitos práticos (benéficos ou danosos) que um determinado programa ou comercial trará à sociedade.
“Tudo em nome da audiência” seria uma irresponsabilidade social dantesca.

A violência, erotismo e valores deturpados a que somos submetidos são os piores indícios das más influências televisivas? Por exemplo, estudos apontam para o aumento no número de divórcios desde a criação da tv. Sabemos que hoje, em muitas novelas e filmes, mais se incentivam as relações extraconjugais do que as relações monogâmicas. Este é o lado danoso a tevê?

Sim, e tudo o que já foi explicado anteriormente responde a estes questionamentos. Porém, cabe mais uma contribuição. 

No corpo teórico-metodológico das Ciências Sociais, tais como a Sociologia, Psicologia Social e Ciência Política, encontramos a “Janela de Overton”. O que vem a ser isso? À grosso modo, é uma ferramenta muito utilizada pelos marqueteiros e propagandistas para fazer a sociedade – ou parte dela – aceitar certos padrões comportamentais e opiniões que antes eram repudiadas por ela mesma. Por exemplo, o divórcio, há aproximadamente cinco ou seis décadas, era terminantemente proibido em grande parte das sociedades, e um divorciado era visto com ressalvas pela maioria. A medida que o tema era sendo exposto na mídia e discutida positivamente e com bastante frequência, a opinião pública saiu da esfera do “proibido” para “proibido com ressalvas”. A medida que foi aumentando o bombardeio midiático sobre o assunto, passou-se para “neutro”, “permitido com ressalvas”, até, em nossos dias, ser “permitido livremente”. E estas mudanças foram acontecendo sem mesmo a própria sociedade se dar conta. O casamento gay, hoje, diria que está na esfera do “permitido com ressalvas”,
mas, infelizmente, não durará muito para estar na esfera do “permitido livremente”.

A TV é a “casa” favorita dos marqueteiros, pois sabem da força que a mídia televisiva tem em detrimento de outras formas de mídia. A Janela de Overton utilizada na televisão passa a ter um poder avassalador na psiquê social, adquirindo um poder indestrutível.

Como lidar com as influências negativas que a tevê promove? A influência da tv depende do senso crítico do telespectador?

Como já dito anteriormente, o ideal seria o papel educador da escola, família e da religião para tornar o o senso crítico do indivíduo mais sensível. Porém, diante da deseducação institucional da escola e da degradação da estrutura familiar, uma outra forma seria partir para o contra-ataque através de outra forma midiática que ainda não tem o mesmo poder da mídia televisiva, mas que tem se popularizado freneticamente: a internet. Creio que é uma ferramenta democratizante – não mais privilégio das classes dominantes – que pode estar à serviço da sociedade civil conservadora (e aqui já subentende-se as igrejas). Esperar que a mídia televisiva abra espaço para esta ala da sociedade seria de uma ingenuidade estratosférica. Ela pode até, vez ou outra, abrir, para não incorrer no risco de ser taxada de antidemocrática. Contudo, será numa proporção infinitamente menor em detrimento aos progressistas ideológicos.

Que mudança é necessária haver diante dessa influência da tevê? A solução estaria no controle remoto, escolhendo o que assistir? Qual seria a solução?

Sejamos sinceros: esperar mudanças da própria sociedade diante da influência da TV seria por demais ingênuo. Grande parcela da sociedade está idiotizada (para usar o termo comumente utilizado pelo filósofo Olavo de Carvalho) pela mídia televisiva.

A construção do senso crítico apurado seria a solução, pois assim a sociedade estaria apta para praticar a declaração paulina: “provar de tudo e reter o que é bom”. Seria uma forma de extrair o que há de bom na TV, sem precisar desfazê-la. Desfazer-se da TV não é uma mudança apropriada para a
solução, seria um retrocesso cultural e (de aprendizado) tecnológico que não contribuiria para nosso crescimento intelectual.

Creio que nossas escolhas diante da TV são materializadas no controle remoto. Creio que antes de ligarmos a TV deveríamos nos perguntar: o que irei assistir irá me edificar em alguma esfera da minha vida, seja espiritual, moral ou intelectual? O problema maior a ser enfrentado seria incutir nas
mentes da grande parcela idiotizada da sociedade esse crivo.

A televisão exerce um efeito muito grande sobre a sociedade, e a sociedade não exerce qualquer controle sobre a televisão?

Sim, creio que haja esta retroalimentação entre a televisão e a sociedade. Afinal de contas, o extrato para as ficções das novelas e filmes é extraído das próprias relações e fatos sociais. 

Há um conceito muito caro para as Ciências Sociais intitulado de “Representação Social”. Trata-se de um espaço de construção da realidade que cerca o indivíduo, e que constantemente é construído por realidades inovadoras no espaço social por outros indivíduos que cheguem ao mesmo espaço, com visões diferentes da realidade e que podem interferir decisivamente na sua visão (construção) do mundo que o cerca. Desta feita, nos tornamos, ao mesmo tempo, construtores e construções – não acabadas – da realidade que nos cercam. Nisso se manifesta a capacidade de criação e recriação social de certos elementos que nos são apresentados cotidianamente – muitas vezes apresentados pela mídia televisiva.

Um exemplo disso é quando, através da TV, nos deparamos com alguma manifestação cultural de outro país. Temos a capacidade de adequá-la aos nossos elementos culturais locais. O movimento manguebit foi um exemplo vivo disso, onde o rock (criação norte-americana) foi mesclado ao maracatu rural do Nordeste brasileiro, surgindo assim um movimento diferenciado. 

O mesmo ocorre com alguns padrões comportamentais ou alguma cultura material difundidos pela TV. Há quem os aceite ipsis literis, outros, irão recriá-los aos padrões locais, dando surgimento a um novo elemento comportamental ou material. Isso, por sua vez, serve como matéria-prima para criação de ficções para filmes, seriados e telenovelas, bem como para matérias de telejornalismo e programas diversos.


* BAUMAN, Zygmunt, 1925. Amor líquido - sobre a fragilidade dos laços humanos. Rio de Janeiro: Zahar, 2004, p. 95.