sábado, 30 de junho de 2012

O Ressurgimento da língua hebraica

Trabalho apresentado para a obtenção de nota na disciplina Hebraico I, ministrada pelo professor Ivaldo, do Setbal - Seminário Teológico Batista de Alagoas. Trabalho baseado no artigo "RENASCIMENTO DO HEBRAICO: A BUSCA PELA IDENTIDADE DE UM POVO" de autoria de Thiago Humberto do Nascimento (USP). A reconstrução da língua hebraica passou por diversos fatores (sociológicos, políticos, educacionais, etc.). Na verdade, todos estes fatores caminhavam de mãos dadas numa única direção: a construção do Estado de Israel, e de sua identidade como nação e povo, com suas peculiaridades históricas e culturais – características comuns a qualquer nação existente. O judeu Eliezer Bem Yehuda (1856-1927) foi o maior dos idealizadores e defensores da língua hebraica como língua oficial dos judeus. Para ele, “o povo judeu deveria desvincular-se das línguas nacionais e empregar uma língua comum que entesourasse as memórias históricas e culturais do povo judeu, e que fosse empregada por todas as camadas do povo” (NASCIMENTO, 2005, p. 144). Embora o autor Thiago Nascimento – a quem uso como fonte para a presente pesquisa – tenha atribuído esta particularidade à característica nacionalista européia, discordo deste pensamento, haja vista que em todas as nações existentes sempre há intelectuais ortodoxos que defendem com “unhas e dentes” a manutenção da cultura e de suas manifestações frente ao avanço da globalização – que põe diversas culturas em constante choque e/ou intercâmbio. Yehuda, na verdade, pretendeu que o uso do hebraico fosse um ponto em comum entre o povo judeu, pois, em sua visão, a língua é o principal atributo de uma nação. Historicamente, o povo judeu utilizou o hebraico como língua falada até o período de exílio da Babilônia (aproximadamente 586 aC), quando passou a falar a língua as línguas nacionais em que se fixaram. Apesar do abandono da língua falada, mas mantiveram suas tradições através da tradição, cultura e religiosidade pela escrita em hebraico. Em outras palavras, mantiveram a identidade com o uso do hebraico. Esse uso ininterrupto na escrita, propiciou a integração do povo judeu – embora exilados em diversos países e mormente recebendo fortemente a cultura destes países, o que é natural. Como podemos observar, foram fatores não lingüísticos, mas sim políticos e culturais, que proporcionaram o uso do hebraico como língua que identifique um povo em detrimento dos povos e nações em que estavam inseridos. Não deixa de ser uma forma de sectarismo, que os diferenciassem das nações em que estavam exilados: “os imigrantes estavam determinados a construir para si uma nova vida, diferente daquela que levavam na Rússia, e estavam dispostos a qualquer renovação que os afastasse da assimilação na Europa e que os aproximasse de uma existência cultural judaica autônoma”. (NASCIMENTO, 2005, p. 148). Embora exilados – e isso é uma característica que observamos até hoje – os judeus sempre procuram formas de se diferenciarem das nações em que estão inseridos. Isso se observa não apenas pela manifestação religiosa – fator preponderante na sua distinção como povo – mas também através de outras manifestações culturais (como a música, dança, culinária e cumprimentos na língua hebraica). Mas do ponto de vista lingüístico, vemos que não houve um ressurgimento do hebraico de forma pura, como pretendiam os lingüistas ortodoxos (Eliezer Yeruda é um exemplo clássico). Isso se deu por alguns fatores. O primeiro deles – e o mais natural, comum a todas as nações –, é que a língua não pode nunca ser vista como um fator estático, isolada das mudanças sociais e culturais. Ao contrário, a língua se desenvolve juntamente com a sociedade, tornando-a dinâmica, assim como é dinâmica as transformações sociais. Tais transformações contribuíram para que palavras novas surgissem na gramática hebréia. O segundo fator (e não menos importante), é que o povo judeu se encontrava – como até se encontra – disperso em várias nações. O contato permanente com as culturas das nações em que estão inseridos se torna preponderante para o surgimento de novas palavras, e até mesmo na contextualização de palavras já existentes, que passam a ter um significado diferente (o termo “bicha” é um exemplo clássico para diferentes significações entre o português brasileiro e o de Portugal). O mesmo pode ocorrer com alguns termos hebraicos. Shalom, por exemplo, entre os judeus (e não judeus) brasileiros, é uma saudação em que se deseja “paz” ao outro; já entre os Israelitas (considerando a nação) passa a ter um significado mais contundente, que vai além de simplesmente “um desejo de paz”. Mas vale salientar que quando falamos em ressurgimento da língua hebraica, não significa necessariamente dizer que ela já estava extinta, morta. Como pudemos ver, o seu uso era bastante comum na forma escrita, como manutenção da identidade e de comunicação entre um povo. O termo pode significar também o impedimento de seu declínio. No caso do hebraico, trata-se de seu ressurgimento como língua falada, e não extinta. Como métodos utilizados para que se pudesse haver êxito na pretensão de ser ter o hebraico como língua falada, seu uso foi bastante utilizado no seio familiar, no círculo de amizades, e principalmente na sala de aula – local considerado, em detrimento das demais, como a mais eficaz. O completo êxito no ressurgimento da língua hebraica como língua falada, deu-se ao nascerem as primeiras crianças falantes nativas do hebraico, no seio das famílias que a falavam, sendo assim educadas nesse idioma, sem nunca terem conhecido outra língua que não o hebraico. Como já dito, o fator político também foi preponderante. O estabelecimento do Estado de Israel, em 1948, conferiu ao hebraico o status de língua oficial e ao mesmo tempo uma posição reconhecida internacionalmente. Embora já se tenha o status de língua oficial da nação israelense, mas deve-se deixar bem claro que o hebraico falado ainda mantém uma certa distância do hebraico escrito, considerado mais erudito. Essa diferenciação se deu pelo fato de que, quando o hebraico se tornou a língua de comunicação de todas as classes de pessoas (juventude, dos não instruídos, de todos os setores de atividade, escapou-se forçosamente do zelo dos escritores e dos gramáticos cautelosos, alterando assim a estrutura das línguas vivas. Chaim Rabin, vem nos dizer que, “quer estas alterações no hebraico tenham sido causadas pela ignorância de parte dos falantes, quer seja pela influência das línguas estrangeiras que falavam anteriormente, [...] ou por forças geradas dentro da própria língua, o fato é que a língua falada se distanciou da língua da literatura” (RABIN et apud NASCIMENTO, 2005, p. 150). Toco mais uma vez no ponto de que o constante contato com outros idiomas, motivado pela globalização, propicia mudanças em qualquer outra língua. Portanto, esta particularidade não cabe apenas ao hebraico, mas sim a todas as línguas, principalmente aos países que tem o seu capital cultural e econômico aberto a outras nações. Com o peso da globalização, compactuo com a idéia de que não é possível uma pureza cultural e lingüística de uma nação. BIBLIOGRAFIA NASCIMENTO, Thiago Humberto do. Renascimento do hebraico: a busca pela identidade de um povo. SOLETRAS, ano V, Nº 09. São Gonçalo: UERJ, jan./jun., 2005.

A "Alta" e a "Baixa" crítica

Trabalho apresentado para a obtenção de nota na disciplina "Introdução Bíblica", ministrada pela professora Lourdes Torres, do Setbal - Seminário Teológico Batista de Alagoas. Trabalho baseado nos livros Curso vida nova de teologia básica – introdução à Bíblia, de Laird Harris, e Introdução bíblica – como a bíblia chegou até nós, de Norma Geisler e William Nix. Críticas à respeito das escrituras sempre existiram. Antes mesmo de Cristo, fariseus e saduceus brigavam pela real interpretação das escrituras (Torah, Neebim e Ketubim). Com a popularização das escrituras (Antigo e Novo testamentos), houve a diversificação de interpretações e métodos de interpretação, jogados sobre as escrituras ao longo dos tempos. Com a impressão das escrituras, houve a facilitação ao acesso ao seu conteúdo, facilitando o surgimento de mais estudiosos e críticos das escrituras. Dentre estes estudiosos, destacam-se os da “Alta Crítica”, que contribuíram com uma crítica racionalista – e esvaziada de zelo – das escrituras. Suas críticas trouxeram grande incômodo à Teologia ortodoxa, pois destruíam (ou pretendiam destruir) algumas crenças asseguradas pela Tradição e pela historiografia ortodoxa. Dentre suas teorias, há o de que alguns livros da bíblia não foram escritos pelos homens mencionados nos próprios livros como seus autores. Afirmam que esses livros não foram escritos nas datas estimadas, bem como foram formados por vários documentos de diferentes datas. Começando pela ordem cronológica, o Veterotestamento foi, digamos, a primeira vítima desta corrente teológica (ou seria antiteológica?). Em 1753, o francês Jean Astruc defendeu a idéia de que o livro de Gênesis teve duas fontes diferentes. Isto porque o nome “divino” aparece como Elohim ou YHWH. Segundo essa linha, isso fez com que Moisés tivesse usado duas fontes escriturais diferentes, ou seja, livros existentes anteriormente ao surgimento do livro de Gênesis. Mais tarde, escritores racionalistas franceses e alemães ampliaram a teoria “Astrucquiana”, e disseram que o Pentateuco foi uma obra construída uma época posterior a Moises. Outro teólogo, Wellhausen, corroborou com essa teoria, ao afirmar que “nenhum dos textos do Pentateuco foi escrito por Moisés e estimou que todo o registro relativo aos sistemas sacerdotal ou às leis sacrificiais foi compilado por homens que viveram mil anos depois de Moisés” (HARRIS, 2010, p. 101). Mas sua crítica em relação ao Pentateuco não se limita apenas a negar a autoria mosaica do mesmo, mas também a acontecimentos históricos narrados em seus escritos. Como exemplo, pode-se citar a existência, ou não, do tabernáculo no deserto; afirmam que esse relato foi inventado por sacerdotes do período pós-exílico. Outra grave afirmação desta corrente teológica, foi a de que Deus não se revelou ao povo da antiguidade como o único Deus. Para eles, “os patriarcas da época de Abraão eram animistas simplórios (adoradores de pedras e árvores). Já nos tempos de Moisés teriam sido politeístas (adoradores de muitos deuses). Afirmaram também que Davi foi henoteísta (alguém que crê que toda nação tinha seu deus particular” (HARRIS, 2010, p. 101). Mas suas críticas foram além do Pentateuco. Para eles, o livro de Isaías foi escrito supostamente por três ou mais indivíduos, refutando assim a profecia da chegada de Ciro com 175 anos de antecedência. Conforme seus ensinos, isso teria sido registrados por Deutero-Isaías, que viveu durante o reinado daquele monarca. Assim, tratavam como registro da história antiga e não como profecia. Embora seus ensinos tentem refutar as verdades bíblicas, mas a maior prova da veracidade das escrituras veterotestamentárias são dadas pelo próprio Senhor Jesus, quando afirmou que o “testemunho do Antigo Testamento (AT) era mais convincente do que o de alguém que ressuscitasse dos mortos (Lc. 16.29-31)” (HARRIS, 2010, p. 102). Podemos enxergar a alta crítica como fruto do modernismo liberal surgido no Iluminismo, no século das luzes (XVIII). Destaque para a escola alemã, que, no início do séc. XX infectou vários estudantes de teologia que iam à Europa estudar. Dentro da alta crítica há a “nova crítica” que, dentre seus principais ensinos, afirmam que as tradições hebraicas foram passadas de forma oral. Ao nosso ver, há fragilidades nesse argumento: 1) Não necessariamente a tradição oral deve ser vista como uma forma fraca de passagem de ensinamentos ao longo das gerações. Em detrimento à forma escrita, pode até ser vista como mais frágil e a mercê de influências ideológicas. Mas até a própria escrita tem seus perigos, tendo em vista a diversidade de interpretações que podem existir ao longo dos séculos, de acordo com os valores culturais e ideológicos hegemônicos de uma dada região geográfica. 2) Os hebreus tinham (e ainda tem com os judeus) escribas que preocupavam-se só, e somente só, em descrever e guardar os ensinos e acontecimentos de sua época. Mas felizmente, desde 1920, que arqueólogos vêm fazendo novas descobertas que confirmam os ensinos dos teólogos cristãos ortodoxos. Quando falamos de “alta crítica”, ficamos a perguntar da existência de uma “baixa crítica”. Sim, ela existe, e Norman Geisler e William Nix fazem essa distinção: “Quando se aplica o julgamento dos estudiosos à autenticidade dos textos bíblicos, esse julgamento se chama alta crítica ou crítica histórica. O assunto desse tipo de julgamento dos especialistas diz respeito à data do texto, seu estilo literário, sua estrutura, sua historicidade e sua autoria. [...] Quando o julgamento dos estudiosos se aplica à confiabilidade do texto bíblico, ela é classificada como baixa crítica ou crítica textual. A baixa crítica se aplica à forma ou ao texto da bíblia, numa tentativa de restaurar o texto original (...) estuda a forma das palavras de um documento, e não seu valor documental” (GEISLER e NIX, 1997, pp. 155/157). O olhar da alta crítica sobre o Novo testamento (NT) também foi devastador ao ensino ortodoxo. Eles negaram a autoria de Paulo da maior parte das cartas a ele atribuídas (GEISLER e NIX, 1997). Concluíram que só poderiam ser atribuídas a Paulo as cartas de Romanos, Gálatas, 1 e 2 Coríntios). Em detrimento à alta crítica, o trabalho desenvolvido pela baixa crítica é considerado construtivo, pois fazem a análise das formas e dos textos bíblicos sempre levando em conta o zelo pelas escrituras. Seu trabalho não pode ser desaprovada pela ortodoxia simplesmente porque muitos da alta crítica também abraçaram a crítica textual. Os críticos textuais não podem ser vistos como “modernistas” – conceito aplicado aos da alta crítica. Isso seria o mesmo que “jogar o bebê junto com a água do banho”. Até porque, o escopo de análise da baixa crítica não é de ordem doutrinária, mas de ordem técnico-científica, ou seja, de metodologias de pesquisas aplicadas às críticas literárias. A crítica textual foi assim desenvolvido (em referência ao NT): 1) Período de reduplicação (até 325): Com a tentativa, por parte dos estudiosos de Alexandria, de restaurar os textos dos poetas e pensadores gregos, veio à luz a Septuaginta (a versão grega do AT entre 280 e 150 a.C.). nesse período não houve nenhuma crítica textual, tão somente a reduplicação dos manuscritos. Com o tempo, foram-se perdendo as cópias mais antigas, porém, antes de perecerem, foram providenciadas cópias que circularam pelas igrejas do séc. I. À partir do momento em que foram feitas outras várias cópias, erros foram aparecendo e se misturando com as verdades. Isso ocorreu pelo fato de muitas dessas cópias terem sido feitas sem a revisão de um escriba. A qualidade da cópia dependia da capacidade do escriba (GEISLER e NIX, 1997). Com o passar dos anos, a perseguição à igreja de Cristo foi tomando cada vez mais corpo, principalmente com o fim do período apostólico. As perseguições dos imperadores Décio e Diocleciano, por exemplo, não apenas destruíam as vidas dos cristãos, como também as escrituras. Por conta desta perseguição, e para não correr o risco dos cristãos ficarem sem livro sagrado, os cristãos faziam cópias, com a maior rapidez possível. Esse fato fazia com que, inevitavelmente, os erros aparecessem. 2) Período de padronização (325-1500): Após o fim da perseguição, com a promulgação do Édito de Milão (313), houve uma melhora significativa na qualidade dos manuscritos. Até porque foi o período em que ocorreu a conversão do imperador Constantino ao cristianismo. O próprio imperador solicitou a Eusébio de Cesareia, 50 exemplares das escrituras cristãs, e isso fez com que houvesse um novo tempo na história do NT. Com o decorrer dos séculos, já no século XII, houve a abundância quantitativa das escrituras, por começarem a ser impressos em papel (com letras cursivas). 3) Período de cristalização (1500-1648): Cristalização, ao nosso entender, foi o processo de imprensa dos manuscritos, tomando a forma de letras não cursivas, própria da manuscrita. Com o advento da imprensa, por Joahnn Gutemberg, em 1454, tornou-se mais fácil a “produção” de escritos em várias línguas simultaneamente, como por exemplo: a Poliglota complutense (1514-17), a Poliglota Antuérpia (1569-72), a Poliglota de Paris (1629-45) e a Poliglota de Londres (1657-69) (Cf. GEISLER e NIX, 1997). A primeira edição do NT a ser publicada, se deu com o humanista holandês Erasmo de Roterdã, no século XVI. Foi publicado em grego. Foi um trabalho feito às pressas, o que fez com que contivesse inúmeros erros tipográficos e mecânicos. Além disso, essa versão não se baseou nos manuscritos primitivos, mas por textos que não passaram por revisões confiáveis, o que trouxe descrédito a esta versão. Mesmo assim, a segunda edição desta obra tornou-se a base pela qual Lutero utilizou-se para a tradução para o alemão. 4) Período de crítica e de revisão (1648 até o presente): Com o fim da era da Reforma, a bíblia passou por um período de crítica e revisão, que se deu (e ainda se dá), dentre as quais destacamos dois períodos: a) Período de progresso (1831-1881) – Foi quando se deu o agrupamento dos textos, e com isso a crítica construtiva desses textos. Também foi nesse período em que primeiros se comentou a bíblia, feito por Henry Alford (1810-1871) que “deitou por terra a reverência pedantesca e indevida ao texto recebido” (GEISLER e NIX, 1997, p. 165). b) Período de purificação (1881 até o presente) – Foi um período em que houve a reação contra a “teoria genealógica” de Westcott e Hort que dividiu os textos em quatro tipos: siríacos, ocidentais, neutros e alexandrinos. Os argumentos podem ser resumidos da seguinte forma: “b1) o texto tradicional utilizada pela igreja durante 1500 anos deve ser correto por causa de sua durabilidade; b2) o texto tradicional possuía centenas de manuscritos que lhe eram favoráveis, enquanto o texto crítico só possuía uns poucos dos primitivos; e b3) o texto tradicional é melhor porque é mais antigo” (GEISLER e NIX, 1997, p. 167). BIBLIOGRAFIA HARRIS, R. Laird. Curso vida nova de teologia básica – introdução à Bíblia. São Paulo: Ed. Vida Nova, 2010. GEISLER, Norman, NIX, William. Introdução bíblica – como a bíblia chegou até nós. São Paulo: Ed. Vida, 2006.

Qual é a nossa esperança?

Trabalho apresentado para a obtenção de nota na disciplina "Introdução à Teologia", ministrada pelo professor Eduardo Vasconcelos, do Setbal - Seminário Teológico Batista de Alagoas. Trabalho baseado no capítulo 7 do livro "Introdução à Teologia", dos autores Justo González e Zaida Pérez. O capítulo VII do livro do livro Introdução à Teologia Cristão, intitulado “Qual é a nossa esperança?”, dos autores Justo González e Zaída Perez, traz, ao meu ver, o assunto da Escatologia sob uma perspectiva diferente das que tem se manifestado em livros, filmes e pregações de muitos cristãos – independente da época vivenciada. Isto porque os autores não trazem a escatologia sob a ótica do “medo”, procurando atemorizar seu leitores, tamanho o temor e mistério inerente ao assunto; mas sim sob a ótica do verdadeiramente salvo, onde a volta de Cristo é motivo de regozijo e sobretudo esperança, e não de temor. A palavra escatologia é oriunda de dois termos gregos que unidas significa “a ciência dos últimos dias”. Dentro desta ciência (ou disciplina), há varias vertentes explicativas dos acontecimentos que antecederão a volta de Cristo. O “dispensacionalismo”, por exemplo, é “uma doutrina que divide as intervenções de Deus na história em uma série de 7 períodos ou ‘dispensações’” (GONZÁLEZ e PÉREZ, 2006, p. 222). São eles, à saber (conforme entendimento dos dispensacionalistas “pré-milenistas”): GRAÇA → GRANDE TRIBULAÇÃO → RETORNO DE CRISTO → O MILÊNIO (Ver Apocalipse cap. 20) → CONFRONTO ENTRE O BEM E O MAL → ARMAGEDON → JUÍZO FINAL. No século XX, o dispensacionalismo moderno apareceu na obra de John N. Darby, que sistematizou este acontecimento citado no quadro acima. Esta doutrina fundamenta-se no capítulo 20 de Apocalipse, onde repetidamente se fala em “mil anos” dos versículos 1 ao 7. Tal doutrina foi popularizada graças à Bíblia de Scoffield, publicada em 1909 (cf. Gonzáles e Pérez, 2006). Porém, como dito no primeiro parágrafo, o tema central da escatologia deve ser a esperança. Deve-se haver um entendimento destes acontecimentos, por parte de nós cristãos, para que possamos estar preparados a “... responder a todo aquele que vos pedir explicação da esperança que há em [nós]” (1Pe. 3.15). Portanto, deve-se haver uma ligação entre entendimento e esperança. São duas coisas que devem andar juntas na vida do cristão, para nos tornar aptos a explicar os acontecimentos vindouros dos últimos dias. Mas, não se poderia falar de escatologia sem também tratarmos do Reino de Deus. Isto porque há uma inclinação de grande parte daqueles que se propõem à estudar a Bíblia, de que o Reino de Deus se refere ao lugar (geográfico) celestial. Como um Reino distante (confesso que também pensava assim, antes de ter meu entendimento aberto por este capítulo). Este Reino também se aplica ao mundo terreno, pois não se refere a um lugar, mas sim a uma outra ordem (p. 230) que abrange tudo – céu, terra, corpos e espíritos. Começou com Cristo (com a sua pregação), continuou com a Igreja apostólica e continua (ou deve continuar) com a igreja contemporânea. A idéia de que o “Reino dos céus” é um outro lugar, vem dos ensinamentos gnósticos, mais especificamente da filosofia platônica. Isto porque, “Platão havia afirmado que, acima deste mundo onde tudo passa e onde as coisas nos enganam, há outro mundo de ‘ideias puras’, quer dizer, de realidades últimas que não mudam, nem passam. Quando os primeiros cristãos saíram pelo mundo Greco-romano pregando sobre uma vida eterna, essa doutrina platônica acabou sendo um forte argumento apologético em defesa da esperança cristã de uma vida eterna e de um reino de Deus. Infelizmente. Uma das conseqüências de tudo isso foi que muitos cristãos se acostumaram a pensar no Reino de Deus como uma realidade ‘lá de cima’, no ‘mais distante’, e não como uma promessa futura” (GONZÁLEZ e PÉREZ, 2006, p. 231). Isto explica o “porquê” de grande parte do cristianismo contemporâneo entender o Reino de Deus (ou Reino dos céus, usado por Mateus para não infringir o mandamento do “não tomar o nome de Deus em vão”) não simplesmente como um lugar, mas um lugar distante. Esse errôneo entendimento de que o Reino de Deus é um lugar puramente espiritual, onde somente as coisas espirituais importam, fez com que houvesse o distanciamento da igreja pelas causas materiais, tais como as políticas e econômicas, que afligem diretamente as vidas dos menos favorecidos. Este entendimento não apenas cegou os cristãos hodiernos, como também anestesiou seus espíritos para as causas sociais. Isto me faz cogitar que este entendimento errado ajudou no esfriamento de nosso amor, tornando-nos coniventes com o aumento da iniquidade (Mt. 24.12), pela nossa inércia frente às injustiças sociais que acontecem debaixo de nossos narizes. O alcance da transformação política e social deste Reino passa pelo revesso do que tem sido feito pelo reino mundano (ou dos homens). O Reino de Deus chega mesmo a ter a lógica anversa ao que se tem praticado no reino dos homens. A bíblia nos mostra que a paz existente no Reino de Deus será tamanha, que até “o lobo habitará com o cordeiro, e o leopardo se deitará junto com o cabrito...” (Is. 11.6). Ou seja, a paz mudará até o mundo natural do reino animal. No reino humano, por sua vez, o conceito de paz é tão somente ausência de guerra, e, muitas vezes, para se estabelecer paz em um território ou nação, fazem-na por meio de guerras, o que contradiz o conceito de paz em sua essência. Vale ressaltar que o conceito de Reino traz em si um significado político, pois a palavra “reino” e “cidade” são termos políticos. Vejamos: “De fato, a própria palavra ‘política’ vem da raiz polis, que quer dizer cidade. Quando lemos hoje em Apocalipse que João viu uma nova cidade, pensamos em um lugar onde há muita gente. Qualquer centro urbano recebe o nome de cidade. Mas esse não era o sentido da palavra no primeiro século. A polis, a cidade, era uma unidade política, um estado [...] Boa parte do livro de Apocalipse pode ser lido como o conflito entre duas cidades ou duas ordens políticas: o de Roma atual [...] e o da nova Jerusalém, onde Deus há de governar” (GONZÁLEZ e PÉREZ, 2006, pp. 236/237). O que deixa evidenciado a diferença política (ou de governo) entre o sistema político que oprimia o povo judeu (adotado pelos romanos) e o “deste mundo” (Mt. 13.40) – referindo-se à política romana – é que este caracterizava-se pelo abuso de poder e pelo interesse próprio (GONZÁLEZ e PÉREZ, 2006). Já aquele, não apenas preocupava-se com os rejeitados e os necessitados, como também ensinou a “grandeza de servir”. Não resta dúvida de que se este preceito fosse culturalmente aceito pela humanidade (independente de ser ocidental ou oriental) não haveria tantas diferenças sociais como vemos hoje. O estabelecimento da polis romana se dava num contexto onde era comum e mais forte o conceito de comunidade entre os judeus – principalmente entre os judeus camponeses –, onde, por exemplo, se a terra de alguém não tivesse a produtividade esperada, suficiente para o sustento de sua família, outros camponeses vizinhos o socorriam, não deixando passar por necessidade. Com o domínio romano – e a imposição da cultura do “ser servido” – os agricultores e artesãos passavam a se preocupar tão somente com o pagamento dos altos impostos cobrados. Isso resultou na diminuição, ou mesmo aniquilação, do conceito de comunidade entre os judeus (Cf. Mesters). Isso mostra que política e ideologia estão imbricadas uma a outra; e que, com o estabelecimento da primeira, há a mudança de mentalidade propulsionada pela segunda. Com o Reino de Deus não é diferente – embora devamos ter o cuidado de não confundir o evangelho com uma mera ideologia humana, pois o evangelho é o “poder de Deus” (Rm 1.16). Seus ensinamentos de amor, paz, equidade e justiça propulsionam práticas que vão estabelecer o modus operandi da comunidade que os aceitam. Assim, se o Reino for caracterizado pelo amor, a vida cristã há de ser vida de amor; se for ensinado a paz, todo o movimento de contenda deve ser redirecionado para a paz; se for vivida a justiça, o cidadão do Reino de Deus lutará contra toda injustiça “neste século” (GOZÁLEZ e PÉREZ, 2006). Mas falar em escatologia é falar também de vida eterna. De início, deve-se deixar bem claro que a doutrina da imortalidade da alma não é doutrina cristã, muito pelo contrário, em São Tiago 5.20, lemos: “Saiba que aquele que fizer converter do erro do seu caminho um pecador, salvará da morte uma alma, e cobrirá uma multidão de pecados”. Essa doutrina ganhou ares quando o cristianismo começou a ser pregado no mundo greco-romano e, com o intuito de convencer os greco-romanos de que o ensinamento da vida após a morte não parecesse tão absurda, começaram a relacioná-la à filosofia socrástica e platônica da imortalidade da alma. Muito embora o homem tivesse sido criado por Deus originariamente para a imortalidade, com a queda no Éden, esse atributo foi retirado do homem. Destarte, aos olhos da bíblia, para se obter a vida eterna – que culmina após a ressurreição do corpo – é preciso que se creia que Jesus é verdadeiramente o Filho de Deus, e que por meio de seu sacrifício na cruz, todos os que receberem de Deus a fé – o dom que nos é dado por Deus (Ef. 2.8) – obterão como graça este outro dom, de forma gratuita (Rm 6.23). Porém, aqueles que não receberam este dom (ou que não quiseram receber, conforme a interpretação Arminiana) irão receber as duras palavras: “Apartai-vos de mim, malditos, para o fogo eterno, preparado para o diabo e seus anjos” (Mt. 25:41). O termo “fogo eterno” tem está associado ao inferno. A palavra “’inferno’ vem da mesma raiz que ‘inferior’, e simplesmente quer dizer ‘o lugar de baixo’. Isso se originou na visão que a antiguidade tinha de um universo em três pisos. A terra na qual vivemos é o piso intermediário, por cima está o céu e em baixo, os lugares ‘inferiores’, ou seja, o inferno. [...] No Novo Testamento, as palavras mais comumente empregadas para referir-se ao inferno são ‘guehenna’ e ‘hades’. A primeira deriva-se de Hinom onde os gentios sacrificavam crianças no fogo, em honra a Moloc. A sgunda refere-se ao lugar dos mortos, como o sheol em hebraico’”. (GONZÁLEZ e PÉREZ, 2006, p. 249). Embora haja a clareza das escrituras sobre os dois destinos existentes para nossas almas, mas uma corrente teológica denominada “universalismo”, apregoa que o sacrifício de Cristo valeu para toda a humanidade – indistintamente de sua fé. Origens foi um dos patrísticos que mais sustentou esta linha interpretativa. Segundo sua visão, “o fogo da condenação não é eterno, mas é antes como um fogo purificador, cujo propósito é fazer os pecadores dignos da presença de Deus. Posteriormente, todos se salvarão – e isso não inclui somente os pecadores humanos, mas até os demônios, pois, de outro modo, o poder de Deus ficaria frustrado” (GONZÁLEZ e PÉREZ, 2006, p. 250). As passagens bíblicas mais usadas para esta interpretação são: “Pois assim como por uma só ofensa veio o juízo sobre todos os homens para condenação, assim também por um só ato de justiça veio a graça sobre todos os homens para justificação de vida” (Romanos 5:18). “Porque, assim como todos morrem em Adão, assim também todos serão vivificados em Cristo” (1 Coríntios 15:22). Para a existência do inferno, há três posições distintas: - Que a condenação eterna contradiz esse amor; - Que a salvação manifesta seu amor, enquanto que a condenação manifesta sua justiça, pois a sua justiça não pode ser burlada; - Em Deus, o amor e a justiça concordam de um modo misterioso que nossa mente não consegue compreender. Mas, independente da existência da condenação eterna, o nosso interesse em Deus deve existir motivado não pelo medo do inferno, mas sim pelo reconhecimento do seu sacrifício na cruz do Calvário, que, movido de amor, se entregou por nós, indignos pecadores. Toda nossa obra em prol do seu reino, a entrega de nossa vida deve ser impulsionada pelo amor e não pelo medo. Em suma, a frase abaixo, diz tudo: “Move-me, enfim, teu amor, de tal maneira que mesmo se não houvesse céu, eu te amaria, e ainda que não houvesse inferno, temer-te-ia” (Cristão anônimo do séc. XVI apud GONZÁLEZ e PÉREZ, 2006, p. 252). BIBLIOGRAFIA GONZÁLEZ, Justo L., PÉREZ, Zaida M.. Introdução à teologia cristã. São Paulo: Hagnos, 2006. MESTERS, Frei Carlos. Com Jesus na Contramão. São Paulo: Paulinas, 1995. http://www.bibliaonline.com.br/

quinta-feira, 24 de maio de 2012

“Se escravo Teu eu for, verdadeiramente serei livre”.

Somos escravos! Quer você queira acreditar, ou não, todos nós somos. A militância existente entre carne e espírito e vice-versa (Gal. 5.17) é pela nossa escravização. Cada um direciona-nos para lados opostos da vida e, de certa forma, justificará nosso fim. Não são os fins justificando os meios (cf. Maquiavel), mas seu inverso. Nosso viver cotidiano – com bondades e maldades – não determina nosso fim, apenas justifica-os. O pecado não deve ser entendido como uma atitude isolada, fruto do ocaso, mas como consequência de toda uma conjuntura espiritual, que desemboca no plano material. Conhecemos essa conjuntura assim que abrimos a Bíblia. Logo de início Deus nos mostra o “por quê” de pecarmos. E a prova fica mais evidente quando Ele destrói toda a humanidade (com a exceção de Noé e seus familiares) e, mesmo assim, a natureza caída e corrompida do homem se manifesta. Em detrimento ao restante da humanidade, Nóe era visto como justo por Deus. Tenho plena certeza que Deus não o teria como justo se ele vivesse de forma egoísta, não ensinando seu estilo de vida aos seus filhos. Isso nos dá substrato para conjeturarmos que Nóe e seus filhos tinham um estilo de vida mais “santificado” (separado) que os demais humanos de sua geração. Num pensamento franciscano, tudo levava a crer que o pecado (ou mesmo seu excesso) seria extirpado junto com o dilúvio, e que, com uma geração mais “santificada”, os novos preceitos comportamentais seriam ensinados de geração a geração. Mas isso não aconteceu. E por quê? Porque o pecado não é fruto de uma cultura, de valores e princípios hegemônicos de uma nação, mas de nossa natureza caída e corrompida. Isso, por si só, já explicaria o “por quê” da deturpação moral de muitos valores culturais que temos em nosso mundo – independente do grau de desenvolvimento. Esse “gene espiritual” está preso à carne. Ou melhor, é constituinte da carne. Faz-me lembrar de Karl Marx, quando o mesmo, influenciado pelos ideais filosóficos de Feuerbach, disse: “o espírito está prenhe da matéria”. Lembro-me também do Apóstolo Paulo, quando nos diz: “De maneira que agora já não sou eu que faço isto, mas o pecado que habita em mim. Porque eu sei que em mim, isto é, na minha carne, não habita bem algum; e com efeito o querer está em mim, mas não consigo realizar o bem. Porque não faço o bem que quero, mas o mal que não quero esse faço. Ora, se eu faço o que não quero, já o não faço eu, mas o pecado que habita em mim. Miserável homem que eu sou! quem me livrará do corpo desta morte?” (Rm. 7. 17-20, 24). Evidencia-se que Paulo não atribui o seu pecado aos ensinos culturais, mas à sua própria natureza humana. Ele reconhece a militância existente entre espírito e carne pela escravização do seu “eu”. Embora pareçam três pessoas distintas (o “eu”, a carne, e o espírito), mas tratamos, de fato, de apenas duas: pois o eu e a carne são um. Não se pode desvencilhá-los. Sem ter a pretensão de querer corrigir Marx e Feuerbach, mas não creio que seja o espírito prenhe da matéria, mas sim a consciência. Esta sim (a consciência entendida como o nosso eu) não pode existir se não houver materialidade, expressividade, enfim, existência. O pecado não existiria se não houvesse quem o praticasse. Assim como não conheceríamos o amor se ele não fosse manifestado por Deus – muito embora, mesmo que Deus não o tivesse manifestado, o amor continuaria a existir, pois Deus é amor (1 Jo. 4. 8); apenas não chegaria ao nosso conhecimento. Não podemos entender essa militância entre espírito e carne no sentido de guerra, pois o conceito de guerra, por si só, dá a entender uma equiparação entre forças, algo que absolutamente não existe entre a débil carne e a irresistível força do Espírito Santo. Mas militância existe, pois é da própria natureza do pecado ser audacioso. A mesma audácia que Lúcifer teve em querer se igualar a Deus. Na vida de um ser em processo de regeneração – enquanto estivermos no mundo não podemos dizer nunca que já somos totalmente regenerados – o pecado ganha forças pelo simples fato da inclinação da carne ser para a morte e para a inimizade contra Deus (Rm. 8. 6, 7). Ou seja, o pecado se utiliza de uma inclinação natural para ganhar forças. Do contrário, força alguma ela teria. É com esta força conjunta que o pecado milita contra o espírito. Por isso que o pecado ganha significância no que tange à separação do homem de Deus – seu objetivo, vale ressaltar. Mas é com esta força que o pecado, também, escraviza o homem. No entanto, liberdade nos é oferecida por Cristo (Jo. 8. 36). Porém, não podemos entender “liberdade” nos moldes secular, ou seja, “de fazer o que quer, no momento que quiser”; até porque este conceito secular vai de encontro aos valores e regras (leis) sociais vigentes. Esta nova liberdade que nos é oferecida por Cristo teve a intenção de nos libertar do poder da escravidão das trevas para nos escravizar à luz. Novamente o Apóstolo Paulo vem contribuir ao nos dizer: “E, libertados do pecado, fostes feitos servos da justiça” (Rm. 6. 18). Enfim, houve apenas uma substituição de Senhores. Isso me faz concluir que o Ser humano é fadado à escravidão. Se não regenerado: escravo do pecado; se em processo de regeneração: escravo da justiça. Que o meu Deus, o meu Senhor Jesus Cristo seja sempre glorificado pela liberdade que me escraviza. Assim como um senhor comprava escravos para lhe servir, tenho consciência que fui comprado (redimido) por Seu sangue. Como bem disse o poeta Luiz de Camões em seu sonêto 11: “É querer estar preso por vontade...”. Eu quero sempre estar preso a esse Senhor que com muito amor me libertou... ou melhor, escravizou, por amor de Seu Nome! “Se escravo Teu eu for, verdadeiramente serei livre”.

segunda-feira, 12 de março de 2012

Em Defesa da CENSURA!


Por: Solano Portela*

Fonte: www.tempora-mores.blogspot.com


As aberrações televisivas recentes, no programa Global Big Brother – com a devassa da intimidade e a devassidão invadindo a intimidade dos lares, bem como as baixarias costumeiras de outros programas de nível sub rasteiro (como os liderados por Luciana Gimenez, Ratinho, pela “turma do Pânico na TV”, etc.), acordaram várias vozes de protesto. Tivemos condenações advindas do mundo evangélico, bem como de alguns segmentos católicos (vide o pronunciamento do Bispo Dom Henrique Soares, repercutido em vários blogs). Até a imprensa secular, talvez hipocritamente, mas talvez movida pelos últimos resquícios de um sentimento de autopreservação da sociedade, objetou ao estado de amoralidade no qual nos encontramos. Tudo isso levanta, novamente, o debate sobre a pertinência da censura.
Como cristãos, o que podemos dizer da censura? Qual deve ser nossa posição perante esse fantasma, sempre contraposto à “liberdade de expressão”? A visão generalizada é a de que censura significa repressão, perda de liberdade. Nesse pensamento, qualquer coisa, qualquer tema, por mais amoral ou destrutivo que seja à sociedade pode ser impresso e divulgado e ai de quem ouse afirmar que deveriam existir controles e proteção a segmentos dessa mesma sociedade. Sob a bandeira da liberdade política, de ação, ou de expressão, preserva-se a liberdade da disseminação da promiscuidade e de toda queda de princípios morais universalmente reconhecidos – aqueles que procedem e foram estabelecidos pelo próprio Deus, quer de forma objetiva e propositiva nas Escrituras (Sl 119.4, 142 e 128), quer aqueles impressos nas mentes das pessoas – naquilo que chamamos de consciência (Ro 2.14-15) – por terem sido criadas à imagem e semelhança de Deus.
Na realidade, o que acontece quando o tema da censura é debatido é que estamos sendo constantemente bombardeados com pelo menos duas falácias pelos meios de comunicação e terminamos absorvendo conceitos que não se sustentam, nem encontram abrigo na visão cristã de mundo. São eles:
1. “Cada um de nós decide o que é bom, válido e correto para nossa pessoa e família”. Consequentemente, qualquer forma de censura é errada, pois temos de nos expor a tudo para então tirarmos nossas próprias conclusões.
2. “Não temos o direito de impingir nossas conclusões ao próximo”. Consequentemente, todas as coisas são permissíveis nos meios de comunicação, para reservar a "liberdade de expressão".
Essas afirmações são enganosas, porque são “meias verdades”. Nas questões não morais, o cristão poderia até aceitar esse raciocínio (exemplo: o que comer, conforme o desenvolvimento e diretrizes de Paulo sobre esses assuntos em Romanos 14 e 15), mas na realidade não é o homem, mas a Bíblia que estabelece os padrões morais de Deus; a distinção entre o certo e o errado.O Salmo 19.7-9 nos mostra a realidade e a excelência da Lei de Deus. É verdade que temos no meio dos cristãos toda uma geração enfraquecida pela falta de entendimento e rejeição dessa Lei, mas a Palavra de Deus constantemente nos alerta para que não sejamos enganados. Ela diz:
Não vos enganeis...
1 Coríntios 6.9,10: “... nem impuros, nem idólatras, nem adúlteros, nem efeminados, nem sodomitas, nem ladrões, nem maldizentes, nem roubadores herdarão o reino de Deus”. Vejam que enquadram-se nessa condenação não somente o conteúdo da maioria dos programas de televisão, que invadem os nossos lares, como também vários de seus autores – principalmente das novelas. Notem a constância com que elas impingem personagens travestidos, grotescamente procurando passar a ideia de que isso é algo não somente presente na sociedade, mas também uma postura natural e desejável.
1 Coríntios 15.33: “as más conversações corrompem os bons costumes”. A palavra traduzida por "conversações" é a palavra grega homilia e significa, também, companhias, associações e comunicações, discursos. Vemos, portanto, o papel crucial da má comunicação na dissolução dos costumes.

Se dizemos que aceitamos a Bíblia como normativa e fonte mestre de comportamento, temos que nos curvar às seguintes conclusões:

1. Tudo que é contrário à Lei Moral de Deus deve ser rejeitado. Compete também aos Cristãos defenderem o ponto de vista de que esta rejeição deve fazer parte da estrutura básica da sociedade em que vivemos. Temos obrigação de proclamar este princípio, de denunciar imoralidades onde estas estão presentes (Sl 119.53 e 136). Democracia não significa subjetivismo na formação de leis, mas uma forma administrativa de nos regermos dentro da Lei.
2. Temos, assim, que ser a favor de algum tipo de censura, na medida em que esta venha a expressar o cumprimento da lei moral de Deus – no seu aspecto horizontal do relacionamentos e limites necessários ao convívio social e aos direitos dos semelhantes. Temos, também, que ser contra a censura, na medida em que a censura se desviar desta linha e procurar apenas promover os pontos de vista não morais, sociais, ou políticos dos homens.

3. Não podemos aceitar o falso argumento de que se não quisermos dar ouvidos ou atenção a qualquer tipo objetável de comunicação basta não sintonizar ou não ler. Numa sociedade sem limites ou controles, somos agredidos diariamente no nosso caminhar ou em nossos lares. São bancas de revistas com a imoralidade explicitamente escancarada; outdoors ofensivos que atingem velhos e crianças sem distinção; inferninhos e casas de prostituição que abrem as portas em qualquer lugar e funcionam sem serem incomodadas sob as vistas cegas ou convenientemente embaçadas no embalo do propinoduto brasileiro; são vizinhanças que vão se deteriorando com a exposição total e agressiva de carne humana, no mercado de corpos vivos.
A censura e o estabelecimento de limites nessas áreas representam tão somente uma extensão lógica da auto-preservação de uma sociedade que cuida de si mesma. Os padrões para esse tipo de censura têm de estar enraizados não no subjetivismo dos censores (pessoas falíveis), mas na Lei Objetiva da Terra, que deve, por sua vez, refletir a Lei de Deus.

Muitos têm usado a diretriz bíblica de examinar tudo (1 Ts 5.21-23) como desculpa para receber e abrigar toda sorte de impurezas pelos meios de comunicação, em uma espécie de vale-tudo amoral. Ocorre que este texto bíblico não nos leva a uma exposição indevida a todo o tipo de lixo. Pelo contrário, ele nos direciona a confrontar as coisas que se atravessam à nossa frente e a rejeitar o que é impróprio, inadequado ou prejudicial. Não precisamos comer uma comida estragada para saber que ela não presta, pelo cheiro podemos conhecer o que é mau ou está estragado. Além disso, a própria continuidade do texto mostra a necessidade de fugir da aparência do mal. Não podemos, pois, estar envolvidos com o mal, sob o pretexto de estarmos examinando a questão.

Sou, portanto, defensor de algum tipo de censura que poupe os nossos filhos e as nossas famílias, hoje prisioneiras de uma sociedade amoral e insolente. Elas precisam ser poupadas do estímulo à sexualidade precoce; do mau gosto das relações sexuais diárias trazidas pelas novelas à mesa de jantar; dos anúncios que se intrometem em programas, selecionados pelo suposto conteúdo de mérito, trazendo o sexo e inversões sexuais agressivas como arma de venda; e de tantas outras situações que apelam aos sentimentos mais rasteiros e egoístas da natureza humana. Esta sociedade se preocupa muito em preservar supostas “liberdades”, mas se autodestrói (Pv 5.22-23) esquecendo as pessoas que a compõem e os valores que realmente precisam ser protegidos.

* Solano Portela é Presbítero da Igreja Presbiteriana do Brasil, membro da Igreja Presbiteriana de Santo Amaro, em São Paulo, graduado em Ciências Exatas, fez o mestrado no Biblical Theological Seminary (EUA, 1974). Solano Portela, além de suas atividades no campo empresarial, em São Paulo, é escritor, tradutor e conferencista. Tem tratado de temas da atualidade à luz da Teologia Reformada do século XVI, com fidelidade à Palavra de Deus.

segunda-feira, 27 de fevereiro de 2012

Se ficar o bixo come, se ficar o bixo pega...


Pequeno artigo escrito pelo pastor Augustus Nicodemus, chanceler da Universidade Presbiteriana Mackenzie.

Fonte: http://tempora-mores.blogspot.com/search?updated-max=2012-02-24T20:02:00-02:00&max-results=5


O ateísmo fundamentalista e o avanço dos muçulmanos são ameaças à Igreja de Cristo. Na verdade, sempre foram, na longa história da Igreja Cristã. E cada geração precisa se preparar para encarar estes desafios antigos.

Mas o neopentecostalismo que se mistura com cultos afro, misticismo, paganismo, mercado religioso e promove a teologia da prosperidade me parece ser, no momento, um desafio muito maior para a Igreja brasileira, pois vem de dentro, passa uma imagem distorcida dos evangélicos para a sociedade, rouba nosso vocabulário, nossa Bíblia, nossa liturgia e nossos membros.

Pastor Yousef Nadarkhani

Não podemos apenas admirar este homem de Deus. Temos que orar pela sua libertação, assim como os crentes narrados no livro de Atos fizeram com o apóstolo Pedro: "Pedro, pois, estava guardado na prisão; mas a igreja orava com insistência a Deus por ele" (At. 12.5).