sábado, 13 de novembro de 2010

Devanear é Preciso


I
Devanear é preciso!
Libertar-se do esperado,
sagrar-se libertário,
andar para trás,
elogiar loucuras,
descortinar defeitos,
desdogmatizar doutrinas,
maravilhar-se com o urbano,
odiar a natureza...
Ah! devanear é preciso!

II
Macular o limpo,
sair para entrar,
entrar para sair,
rir com a desgraça,
chorar nas alegrias,
romantizar o objetivo,
poetizar rotinas,
alegrar-se na guerra,
entristecer-se na paz...
Ah! devanear é preciso!

III
Entristecer o palhaço,
alegrar o melancólico,
viver pela fé,
cegar o racionalismo,
construir causos,
desconstruir realidades,
mascarar o aparente,
desmascarar o teatralismo,
desejar o indesejável...
Ah! devanear é preciso!

IV
Elogiar a loucura,
refutar a sabedoria,
ser forte na fraqueza,
confundir os sábios,
viver na ignorância,
ler de cabeça pra baixo,
passear elegantemente,
informalizar-se no casamento,
fazer esculturas de lixo...
Ah! devanear é preciso!

V
Não planejar o amanhã,
viver sempre o último dia,
infantilizar-se na maturidade,
recrear-se na seriedade,
morrer na melhor parte,
exultar no luto,
desfalecer no nascimento,
piorar na saúde,
melhorar na doença...
Ah! devanear é preciso!

VI
Saborear o diferente,
amar quem nos odeia,
acreditar em utopias,
honrar quem nos desonra,
levantar-se em meio aos feridos,
prestatizar-se ao indiferente,
iluminar o que é escuro,
obscurecer o iluminado,
emergir na movediça...
Ah! devanear é preciso!

VII
Prender-se em pleno vôo,
voar numa cela,
correr de olhos vendados,
perder para ganhar,
ganhar para perder,
misturar teorias,
inventar quimeras,
tumultuar a ordem,
ordenar o caos...
Ah! devanear é preciso!

VIII
Dormir até tarde,
faltar ao trabalho,
banhar-se no mar,
viajar sem planejar,
conhecer pessoas novas,
conhecer outras histórias,
andar sem destino,
militar em causas sociais,
apregoar uma fé...
Ah! devanear é preciso!

IX
Suspender agendas,
brincar com o cachorro,
criar uma música,
plantar uma árvore,
não fazer filhos,
viver para os outros,
ser indiscreto,
tentar mais de uma vez,
ser demitido...
Ah! devanear é preciso!

X
Fazer uma poesia,
abrir uma gaiola,
desfazer-se de orgulho,
deixar ser ultrajado,
silenciar-se nas calúnias,
gritar nas injustiças,
brigar com o forte,
unir-se ao mais fraco,
nunca negar o passado,
Sim, devanear é sempre preciso!

sábado, 6 de novembro de 2010

O Mundo Anda Doente.


Sei que todos já estão cansados de ouvir isso. Mas é uma realidade que deve ser dita todos os dias, para ver se, ao menos, como fruto da insistência, as pessoas acordam e vejam no que está se transformando o mundo em que elas não apenas vivem, mas ajudam a construir. Há quem achará alguns pontos conservadores demais, fruto de meu ascetismo religioso. Bom, não deixa de ser uma visão de mundo e, como tal, deve ser respeitada – como respeito as demais. O mundo anda doente sim! E em todos os sentidos. Tento enumerá-las:

1. A começar pelo consumismo exacerbado. Vejo que as pessoas enxergam no consumo um meio de status e de satisfação de seu ego perante os que lhes cercam mais imediatamente. A máxima tragicômica espalhada pelos correios eletrônicos à fora é uma verdade incontestável: “As pessoas possuem aquilo que não tem necessidade, para mostrar às pessoas que não gostam de que podem ter aquilo que não gostam”. Parabéns ao autor anônimo desta frase. É doentio! É loucura! Ando pela minha pequena cidade, e vejo a quantidade de carros novos – invariavelmente quase todos conseguidos de forma financiada, trocando muitas vezes o necessário pelo sonho de consumo – espalhados e apinhados em quase todos os cantos de Maceió. O sentimento de se pensar coletivamente inexiste nas mentes das pessoas. O que lhes importa mesmo é ter o seu carro novo, mesmo que não trafeguem como deveriam – ou como sonhariam. Tornam a cidade num verdadeiro caos, e transferem este caos para as suas vidas. Não é nenhuma mensagem de satanização ao carro. Ter carro é bom, útil e cômodo, desde que usado na medida certa. Olham apenas para os seus umbigos. E a tendência é que nunca acordem deste mal, mesmo que inúmeras vozes se levantem proclamando o caos que não há de vir, mas que já chegou! São “vozes que clamam no deserto”. Não adianta! Achamos que, como seres humanos, progredimos diametralmente ao progresso tecnológico e industrial; mas ao que parece, caminhamos em sentido oposto.

2. A fácil aceitação pelas coisas que vem de qualquer religião, mas o desprezo pelos elementos do cristianismo. Vejo artistas brasileiros cantarem e exaltarem divindades das religiões afro, e serem admirados por isso. Mas se algum deles cantar, em meio às suas canções, músicas que exaltem o nome de Cristo, são logo ridicularizados.

3. A valorização pelo exterior, e não pelo interior. Beleza virou mais do que meio de atração sexual – comportamento até então aceitável nos seres humanos, pois trata-se de algo imanente. Transformou-se em meio de aceitação social, status a ser perseguido e alcançado. A Moda contribui decisivamente para isso, ditando o que é belo e o que não é. Assim, quem quiser manter seu “estilo próprio” é considerado ridículo, ou quando menos gravemente, como alguém excêntrico, extemporâneo. Enfim, obrigatoriamente “temos que ser iguais”!

4. As oito horas de trabalho diários. Parece argumento de preguiçoso, mas acreditem: não é! André Gorz já me convenceu disso: onde fica o espaço para aprimorarmos nossas vocações? Nem todas as vocações são voltadas aos interesses capitalistas. Muitos, como eu, querem aprender a tocar algum instrumento, ou aprender uma arte qualquer. São coisas do interior, pertencentes ao individualismo. Onde fica o espaço de tempo diário dedicado à família? A lógica capitalista tende à segregação familiar, e nunca à sua união.

5. Insensibilidade social. Lembro-me de um programa televisivo que assisti no Nat Geo, de uma experiência em trazer membros de uma tribo que nunca estiveram em alguma cidade urbana. Hospedaram-nos numa família urbana e ali puderam trocar experiências. Numa dessas experiências, no intuito de aprenderem o dia a dia de uma família de classe média urbana, eles acompanharam o banho e tosa do animal de estimação da família. À caminho do Pet Shop, eles puderam ver homens e mulheres dormindo nas calçadas e bancos das praças. Quando todos já estavam de volta à casa, um dos membros da tribo perguntou: “Eu não consigo entender, como é que vocês cuidam tão bem de seus animais, mas deixam seus irmãos dormirem ao relento”. Meu Deus! Foi chocante em mim! Essas palavras foram dirigidas a mim! Como é que nunca pensei nisso?

6. Mal uso da política. Historicamente, o Brasil e muitos países das Américas do Sul e Central, além da África e Ásia, carregam em si uma construção deturpada dos valores políticos. É de berço. Desde a construção da res publica que o estilo patriarcal de governo transpassou do modelo familiar para o da política, no Brasil. Isso é bem demonstrado nas compras de votos e nas trocas de favores. Nestes último dias, época de campanha eleitoral, uma sobrinha de minha cunhada, ainda criança, acenou para um deputado estadual recentemente reeleito que passava em campanha. Na sua inocência como criança, esperava apenas uma retribuição de aceno, mas, ao invés disso, recebeu R$ 20,00. Revoltante! Mas o tiro saiu pela culatra pois a mãe desta criança também revoltou-se com a cena.

7. A banalização da vida. É lamentável como tirar a vida de alguém tornou-se algo tão natural! Natural não apenas para quem tira a vida, mas também para nós, que assistimos e lemos nos meios de comunicação, todos os dias, assassinatos de toda espécie. Nossa mente já calejou. Não conseguimos sentir mais nada com isso. A dor do próximo não nos diz mais nada!

8. Desesperança. Enquanto estivermos neste mundo não temos certeza de nada. Caminhamos desesperançosos, até mesmo esperando pelo pior mais à frente; isto para não enlouquecermos quando o mal nos vir de súbito. Assim vivemos sempre ansiosos, não sabendo o que nos sucederá. Às vezes estamos tão atolados à má sorte que estranhamos quando algo de bom nos bate à porta. Construímos na vida porque é o percurso esperado por todos, mas a vontade mesmo é não construir, para evitar decepções futuras. Em todas as culturas, mas, mais acentuadamente na cultura ocidental capitalista, retroagir é demérito, humilhante. Vivemos aqui como “mortos vivos”, e a nossa sorte estará sempre à mercê dos outros. Não existe estabilidade. Nosso bem-estar sempre estará à mercê de julgamentos alheios. Vivo sempre esperando pelo pior, até mesmo como forma de me fortalecer perante as intempéries da vida.

9. A supressão da liberdade. Ora, não é preciso viver preso para se concluir isto. Você já se imaginou vivendo numa sociedade onde uma simples opinião, visão de mundo, não pudesse ser simplesmente exposta? Você já se imaginou tendo sua opinião banalizada pela maioria? Já imaginou se prevalecesse apenas a vontade da maioria e você sendo obrigado a segui-la? Muitos países socialistas, tais como China, Coreia do Norte, Vietnã, Cuba, Iêmen, dentre muitos, ainda existe. Há quem diga – e com muita propriedade – que o capitalismo persegue os ideais da liberté, enquanto que o socialismo persegue apenas a égalité. Parece até que são ideais antagônicos. Mas o são por culpa nossa, pelo nosso egoísmo doentio. Um capitalismo urbano, em detrimento do selvagem, me parece mais apropriado.
E supressão da liberdade parece não apenas ser exclusividade de países socialistas. Países teocráticos, como o Irã, também são mestres na arte de suprimir. É lamentável que ainda se mate em nome de Deus!

10. A banalização do sexo. Saiu do plano natural e se encontra no plano da deturpação moral. Sexo perdeu sua finalidade de procriação e de intimidade. Tornou-se escopo a ser perseguido com toda a mente e força. É a Vulgarização da mais alta demonstração de amor entre dois seres humanos. Aliás, sexo virou a vulgarização, em si, do amor. Se não fosse pelas religiões, que se mantém numa posição de vanguarda, de defesa dos ideais simbólicos e dos bons costumes, e se dependesse das interpretações ultra-subjetivas das Ciências humanas e sociais, o amor receberia outros nomes, tamanhas as leituras e releituras que fazem de si. Ninguém consegue entrar em consenso quando se trata em defini-lo.
A sensualidade está exposta em todos os lugares e pessoas. Desejar ser sensual é mais do que conquista do sexo oposto, é um meio de aceitação social. A pornografia é um dos mercados que mais cresce no mundo. Isto não é um fenômeno de nossos dias, mas vem de muitos anos. Aqui no Brasil, só para servir de exemplo, a indústria pornográfica recebe isenção fiscal. Ou seja, é mais que uma permissão, é um incentivo à promiscuidade. Na Holanda, prostitutas são expostas em vitrines, e tenho certeza que isso servirá de exemplo a ser seguido no mundo inteiro, como demonstração de liberdade, laicidade e até mesmo como demonstração de amadurecimento social e desenvolvimento legal de uma nação. Posso dizer sem medo, que se fosse para dar nome à presente era, a chamaria de Era da Sexolatria. O termo resume tudo.

O mundo anda doente; estamos doentes. Doença da alma, da psiquê e do corpo. Somos Vítimas e algozes, ao mesmo tempo, desta construção do mundo objetivo e subjetivo. Para onde olhamos vemos o mundo sangrar. Sangramos juntos e não sentimos. “É dor que desatina sem doer”, parafraseando Camões. Não temos forças, em nós mesmos, para mudar este quadro, pois estamos por demais embebidos neste mundo, ao ponto de nos considerarmos: somos do mundo, somos o mundo! Olho para as igrejas cristãs, e enxergo alguém que poderia fazer a diferença no mundo, mas que tem estado doente igualmente. Este modelo de cristianismo business que tenho visto, nunca fará a diferença. É o espírito do capitalismo estado presente na vida das igrejas: visam o crescimento de seus templos e de sua membresia. Viver como Cristo viveu, é um preço que não estão dispostos à pagar. Tamanha omissão colabora para a chaga mundial. Só uma interferência divina direta poderá nos salvar, pois, à depender de seus eleitos, estamos perdidos! Mas não podemos exigir cuidados de alguém que também anda doente.

A Ameaça Socialista


Se o mundo achava que estava livre deste mal*, está enganado! Explico:

a) A China é considerada uma superpotência não apenas do ponto de vista econômico, mas também militarmente. Põe medo a qualquer nação do mundo, inclusive aos Estados Unidos, onde, um possível confronto, seria o fim do mundo (metaforicamente, claro). Embora seja economicamente capitalista, mas politicamente é socialista e, como sabemos, não há como haver separação total entre os modelos econômico e político. Sempre a economia de um país receberá interferências da política. Exemplo disso são os Estados Unidos e alguns países europeus, tais como França, Portugal, Espanha e Grécia, que estão mergulhados numa crise econômica sem precedentes e que, para se verem livres deste mal, mudam suas políticas cambial, econômica, financeira e social. Medidas dantescas que afetam a vida e os bolsos dos trabalhadores. Em caminho contrário à crise, de vento em popa, a China vai mostrando ao mundo que as decisões políticas socialistas ajudam não apenas a manter intacta sua economia, bem como fazê-la prosperar em meio a tanta turbulência; que a perestroika foi um “mal necessário” no tocante ao crescimento e fortalecimento da nação.

b) Embora Cuba não seja uma potência econômica – talvez fruto do embargo econômico imposto pelos EUA –, e esteja caído no ostracismo político e econômico, sempre foi considerado exemplo do ponto de vista educacional e da Saúde. Taxa de analfabetismo zero e uma Saúde de pôr inveja a qualquer país do BRIC e do G-8, Cuba nunca cansou de apregoar que tais méritos são frutos de uma política socialista.

c) Senão todos, mas a grande maioria dos países sulamericanos são governados por partidos de esquerda. Embora não façam menção de seus ideais de antanho – exceto Venezuela e Bolívia – as experiências ideológicas e de lutas adquiridos pelos seus governantes nunca serão totalmente extirpados. Fazem parte de suas trajetórias de vida política, e sempre vão dever seus sucessos políticos do presente, às lutas de outrora. Sem falar que os países sulamericanos sempre tiveram uma queda pelos ideais de esquerda e um certo rancor aos EUA e aos seus respectivos países colonizadores. Isto se deve, principalmente e historicamente , à interferência americana e europeia em suas economias, culturas e políticas. Ser um país colonizado com fins extrativistas deixou-nos marcas sociais negativas profundas, e isso é praticamente imperdoável pelos países do baixo trópico. Como corajosamente disse Cristina Kirchner, no episódio do velório de seu marido, em que impediu a entrada e participação do vice-presidente Julio Cobos: rancor não se cura!

d) Os EUA estão mergulhados numa crise econômica sem precedentes. E por incrível que pareça não é fruto da competitividade natural capitalista – como previam os marxistas –, mas sim da inadimplência deles mesmos. Sicofantas de si mesmos! Cuspiram pra cima! Alguns economistas prevêem que os EUA devem recompor sua economia no prazo máximo de dois anos, correndo o risco de não lograrem êxito, passado este prazo. Como foi visto, medidas nunca antes navegadas na mente humana foram tomadas: até mesmo doação (é doação mesmo e não empréstimo!) às grandes empresas e bancos foi feito pelo governo americano, no intuito de socorrê-los. É a velha interferência política na economia. Para quem sempre apregoou e se gabou do livre comércio e da não interferência política nos assuntos econômicos foi um tapa daqueles! Fica a pergunta: por que algumas poucas empresas e bancos de grande porte foram beneficiadas com essas doações em detrimento de outras de mesmo porte? É amigos, sujeira política não é particularidade de países pobres, quem diria!
Tenho minhas dúvidas se conseguirão sair desta crise, principalmente pela atualíssima composição de seu Congresso: Republicanos à torto e à direito! Como é da praxe política de toda oposição - em qualquer lugar do mundo -, não vão perder oportunidade, tempo e esforços para culpar os Democratas, e solução que é bom: nada! Obama passou de mocinho para bandido nesta história. O solution-men decepcionou os corações dos menos conservadores do mundo inteiro, e o jeito será baixar a crista e entregar-se de corpo e alma às mãos dos xiitas conservadores Republicanos, para ver no que vai dar. Se der certo, os Democratas terão que amargar uma bom tempo no ostracismo político, até cair no esquecimento coletivo o seu fracasso. O mesmo se aplicaria ao Brasil, caso o governo do PT fosse um fracasso. Mas para nossa sorte (ou competência dos petistas!) saímos bem na fita.

Como se pode ver, a guerra fria não teve seu fim com a queda do muro de Berlim. E toda essa conjuntura citada pontualmente, trata-se apenas do início (ou retorno?) das dores!

* Mal apenas para os conservadores.

quinta-feira, 7 de outubro de 2010

É Preciso Uma Introspecção Política


Estamos, mais uma vez, diante do processo mais democrático que pode existir numa sociedade democrática representativa. Verdadeiramente – e não por falácia – temos um rico e imenso poder em nossas mãos. Fico demasiadamente triste ao saber que tal poder está alienado e engessado pelo pensamento absoluto em que pensar a política (quer nas conjunturas municipais, estaduais e nacional) é coisa de intelectual ou de “quem não tem nada a fazer”. Sei que a direita conservadora, através de sua práxis política, ajudou, e muito, o constructo deste pensamento; isso ajudava na manutenção do status quo político de suas bases, afastando o interesse público de seus reais interesses: pessoais e inalienáveis. Esse afastamento político faz com que se prolifere as práticas de corrupção e descaso que arruínam nosso país. Segundo estudos da ONU (Organização das Nações Unidas), se o Brasil reduzisse em apenas 50% a sua corrupção, teríamos a mesma estrutura em saúde e educação que os países de primeiro mundo. Como foi mensurado, não sei. Talvez somando os montantes descobertos pelas Polícias, Ministério Público e Controladorias Gerais, ao longo destas últimas duas décadas.

Há quem diga que a situação política que vivemos seja fruto de nossa própria natureza humana: corrompida, aproveitando-se das brechas situacionais para usurpar interesses próprios. Há fundo de verdade nisso, e talvez seja a explicação última e componente sine qua non do arcabouço explicativo holístico para tais práticas. Quando falo que “é preciso uma introspecção política”, não me refiro apenas a uma mudança de estrutura política nos âmbitos representativos de poder, mas também de uma mudança de estrutura do pensamento e, consequentemente, comportamental, enquanto sujeitos políticos. Devemos nos reconhecer nas ações políticas que são discutidas e votadas nas Casas Democráticas de nossa nação; saber que verdadeiramente não há distâncias, como se as decisões políticas interferissem na vida de seres alienígenas e não à nossa. A Lei da “Ficha Limpa”, por exemplo, deveria ser vista como um despertar da população para o tamanho do poder que temos em nossas mãos; de mostrar que é sim possível mudanças partidas de dentro da sociedade organizada; que mudanças significativas na estrutura social, político e econômico são viáveis, desde que haja o auto-reconhecimento de boa parte da sociedade – para não ser utópico em dizer toda sociedade – da influência que seus pensamentos e atitudes podem fazer. O “estrago” seria grande! Refiro-me ao “estrago” nos interesses pseudo-políticos dos maus representantes.

Entendo que uma possível organização social em massa não se dá de forma pura, ou seja, sem interferências ideológicas e doutrinárias, pois como já bem disse Bakhtin “um produto ideológico faz parte de uma realidade (natural ou social) [...] tudo que é ideológico possui um significado e remete a algo situado fora de si mesmo” (Bakhtin, 1997). Muitos, principalmente os ideólogos de esquerda – que discutem e labutam há muito nas causas sociais – veriam como uma oportunidade ímpar na história (mais uma!), para propagar suas doutrinas, e incutir na mente daqueles que não se reconhecem de esquerda que, mesmo sem querer, defendem os mesmos ideais e projetos. Isso seria um verdadeiro “balde de água fria” na continuidade da luta social civil organizada, tendo em vista que, quase que em absoluto, a população brasileira é politicamente tradicional, conservadora, tendo, às vezes, ojeriza pelo pensamento de esquerda (refiro-me à esquerda verdadeira, e não a uma Terceira Via, adotado por FHC e continuado por LULA). Basta relembrarmos a Marcha da Família com Deus Pela Liberdade, ocorrido em março de 1964, onde estima-se ter reunido cerca de 500 mil pessoas, em detrimento à Marcha dos Cem Mil que militavam contra a ditadura. De lá para cá pouca coisa mudou no perfil político brasileiro. Mudam-se as gerações e continua impregnado na cultura política brasileira o mesmo conservadorismo – senão pior.

Mudar o pensamento político dos brasileiros não significa necessariamente deixar o conservadorismo e aderir aos ideais de esquerda. Quando a sociedade passa a se interessar e participar dos processos políticos de seu município, e/ou estado, e/ou nação, não importa a bandeira que esteja no poder (se de Direita, Centro ou Esquerda - isto é, a velha pseudo-esquerda brasileira que tanto conhecemos). Todos eles passarão a ter maior cuidado nos gastos públicos, serão mais rigorosos em casos de corrupção, em casos de projetos de leis mais delicados – que vão de encontro ao pensamento cultural e religioso da sociedade, bem como à vida econômica dos brasileiros – passarão a fazer mais plebiscitos, consultando e não mais desrespeitando a soberania popular. A mesma realidade se aplicaria às questões sócio-ambientais, onde possivelmente os interesses de pequenas comunidades não seriam tragados pelos interesses do mercado imobiliário e do grande capital, que enxotam populações tradicionais de suas regiões, esgarçando raízes históricas, culturais, sentimentais e naturais para atender aos interesses fúteis dos novos burgueses, que surgem como beneficiários e resultados de uma educação diferenciada da grande maioria dos brasileiros.

Destarte, não importaria tanto um welfare state ou um laissez-faire. De uma forma ou de outra, com a participação e interesse direto da sociedade (não estou fazendo alusão a uma democracia direta, onde acho pura quimera), as coisas andariam dentro dos conformes – dentro de seus respectivos modelos políticos e econômicos, óbvio. Todos têm a contribuir, desde que haja participação da sociedade civil organizada no controle dos gastos e nos acordos licitatórios realizados pelos governantes. Podem até pensar que estou sendo pragmático ao extremo, sem firmeza ideológica, mas tenho percebido que muitos intelectuais da política pensam-na sobejamente como uma atmosfera meramente ideológica, não havendo espaço para a prática, que, ao meu ver, é o que verdadeiramente faz a diferença no meio social. Muitas vezes sou levado a crer que em uma defesa político-ideológica, em confrontação à outra(s), há muita vaidade, mas não uma vaidade pura e simples; refiro-me a uma vaidade extremada, que cega ao ponto de não enxergar propostas positivas em outros campos ideológicos. Isso (a vaidade), ao meu ver, explica, em boa parte, a grande diversidade de partidos políticos de esquerda – sem levar em conta seus interesses políticos (desta vez entendam "políticos" pejorativamente). No frigir dos ovos, todos têm propostas e anseios em comum, mas distanciam-se pelo orgulho doentio em querer que seus pontos de vistas superem aos dos demais. É como se seus interesses egóicos sobressaíssem em detrimento aos interesses sociais. Nada mais além do que fruto de uma esquerda acadêmica, teórica, aprendida – e convencida – nas cadeiras escolares, e não na prática pela defesa dos interesses dos menos favorecidos, vítimas da selvageria capitalista que esgarçam qualquer tipo de esperança que possa florescer em seus corações. Enfim, um simulacro!

(Re)Pensar a política intimamente é mais do que um dever cívico: é um dever moral. Não há demérito algum em refleti-la de forma não viciada, objetiva, imparcial, tendo como único escopo o bem-estar de todos. Parafraseando a bíblia: quem tem ouvidos, ouça!

sábado, 31 de julho de 2010

Crítica à Razão ou Exaltação à Emoção?


Escrito em 13.07.2005.


Emoção: um incrível e único meio de se viver a vida. Razão: um incrível meio de se pensar a vida (Será?). Mas como pensar a vida sem um bom estado emocional? Seria por isso a dicotomia existente nas conclusões “do que seria a vida” entre um melancólico (Camões) e um expansivo (Manoel da Costa)? Seriam as conclusões racionais frutos de nosso estado emocional? Estaria assim a razão à mercê da emoção? Olhando nesta perspectiva o homem seria apenas emoção? É seguro o homem pensar o próprio homem? Em outras palavras, seria possível a razão pensar questões concernentes à humanidade? Mas o que é segurança? É capaz o homem de ser seguro? Pertence ao homem a segurança? Estariam errados os filósofos pré-socráticos até aos atuais? É confiável a psicologia? São confiáveis os descobrimentos freudianos da psicanálise? Estaria a humanidade, desta feita, vivendo sem meio e fim? Retrocederia o homem na história evolutiva da ciência, reconhecendo assim, a importância da Teologia? Seria a razão – ou a pura e simples tentativa de sê-lo – fruto da audácia humana de querer pensar e, conseqüentemente, decifrar a vida? Por ser audácia, seria pecado? Sendo assim, querer pensar a vida se constituiria pecado? Tendo a Teologia uma resposta sobre “o que é a vida”, não estaria assim pecando? Desta feita, não seria a Teologia fruto do pecado humano? Enfim, onde está e o que seria a razão? Criação humana? E você? Ainda tem certeza sobre a vida? Emocione-se, para logo após responder. Qualquer tentativa em querer responder tais perguntas, será, nada mais e nada menos, fruto de seus sentimentos. Portanto, Vive le setim‘etu!!!

Peço Perdão...


Esta poesia foi escrita quando do mais alto de minha subjetividade e introspecção... escrita alguns anos atrás... não sei precisar o tempo.


PEÇO PERDÃO...

Peço perdão à Deus, por nunca ter correspondido
ao seu imenso amor demonstrado na cruz.

Peço perdão aos meus pais, por nunca ter realizado
os sonhos que um dia vocês sonharam para mim.

Peço perdão aos meus amigos, por nunca ter alcançado
o nível que vocês esperavam de mim.

Peço perdão aos meus inimigos, por nunca tê-los
feito ver em mim um inimigo à altura.

Peço perdão ao meu corpo, por sempre tê-lo feito
alvo de minha discrepância intelectual.

Peço perdão à minha alma, por sempre tê-lo conduzido
ao obscurantismo de minha subjetividade.

Peço perdão a mim, por sempre
enganar meus próprios planos.

Peço perdão às minhas paixões não correspondidas,
por não ter sido capaz de fazê-las ver em mim alguém
capaz de realizar suas utopias.

Peço perdão à luz do dia, por nunca ter aprendido
o que sempre foi ensinado sob seu clarear.

Peço perdão à lua e às estrelas, por nunca ter
buscado inspiração em tamanha beleza.

Peço perdão ao amor, por nunca tê-lo decifrado
por mais que eu o sentisse.

Peço perdão à alegria, por não permitir que em
mim brilhasse no teor em que nasceu para brilhar.

Peço perdão à amizade, por ter-me envergonhado em
demonstrá-lo num abraço, aperto de mão,
carinho, sorriso e paciência.

Peço perdão à solidão, por nunca ter apreendido o seu
valor positivo e que sempre quis me ensinar.
Pelos mesmos motivos eu peço perdão à tristeza,
à amargura, à dor e ao sofrimento.


Peço perdão à verdadeira inteligência,
por sempre tê-la assassinado.

Peço perdão à morte, por não ter a devida coragem
em responder aos seus constantes convites.

Peço perdão aos leitores deste emaranhado de palavras,
por não ter sido capaz de tê-lo feito em prosa e verso.

Peço perdão...

Perdão...

Perdão...

Perdão...

Sobre a Língua


Este pequeno texto foi produzido para a confecção de folder's do acampamento da Jubal, quando da minha estada como presidente desta instituição.


Não erro ao dizer que a batalha mais duradoura do mundo é a batalha do crente. É uma batalha que começa quando adquirimos consciência e só termina no final de nossas vidas. Esta batalha a que me refiro é a batalha espiritual. É uma batalha onde o mero armamento humano não é suficiente, onde todas as estratégias oriundas da inteligência humana nada podem fazer. O apóstolo Paulo, na carta aos efésios capítulo 6 e versículo 11, nos dá a orientação da única estratégia capaz de vencer a batalha: “Revesti-vos de toda a armadura de Deus, para que possais estar firmes contra as astutas ciladas do diabo”. Revestir-se da armadura de Deus, aqui está o cerne de nossa batalha. Costumo dizer que seguir uma vida de santificação é o mesmo que tentar se construir uma casa em meio às dificuldades; na chuva, com o cimento sendo espalhado pelo vento, a argila, a areia e a massa sendo arrastados pelas águas, os tijolos sendo destruídos por outros, enfim, já se imaginou construindo uma casa assim com tantas situações adversas?
O pior de tudo é saber que o diabo não apenas se utiliza de nossas fraquezas, como também – e porque não dizer principalmente – de nossas paixões, ou seja, daquilo que aparentemente não seja pecado, mas que se torna à medida que valoramos algo de tal forma que venha tomar a prioridade de nossas vidas, que só a Cristo deve pertencer. C. H. Spurgeon, em seu célebre livro intitulado Batalha espiritual, nos diz que a armadura de Deus “... é o sangue de Cristo e que este sangue é santidade.” Assim, vemos a grande importância de sermos santos, pois não apenas fomos lavados pelo sangue do Cordeiro, como também o carregamos conosco, sendo ele a marca de Cristo em nossas vidas e o que nos faz “irrepreensíveis e sinceros, filhos de Deus inculpáveis, no meio de uma geração corrompida e perversa, entre a qual resplandeceis como astros no mundo”(Fp.2.15).
Mas, uma pergunta que não quer calar, o que a língua tem a ver com tudo isto? O próprio Jesus Cristo nos fala em Mt. 15.18 que “o que sai da boca, procede do coração, e isso contamina o homem”. Agora sim, podemos começar a entender a importância que a língua exerce no processo de santificação. Ela é um simples meio para se exteriorizar os nossos pensamentos e intenções.
E você? Como está utilizando sua língua? Que prioridade você está dando-a? Ela edifica mais do que danifica? Maldiz mais do que bendiz? O que há no seu coração?
Porque Quem quer amar a vida, E ver os dias bons, Refreie a sua língua do mal, E os seus lábios não falem engano”(1Pe. 3.10). Eis aqui mais um desafio em meio a nossa batalha espiritual que nos fará pensar nestes quatro dias de acampamento.