Não sei se chamo de característica pessoal, ou fuga da processualidade do pensamento moderno na administração – provocada pelo cansaço à forma meticulosa, “amarrada”, metodológica que permeia o trabalho na modernidade –, ou mesmo a facilidade proporcionada pelo livre pensamento manifestada nas poesias sem métrica, artigos avulsos, livros de ficção sem fidelidade literária; enfim, uma coisa é certa e ninguém pode contrariar: o livre pensamento ganhou alturas significativas.
Há quem diga que isso é fruto da pós-modernidade, de tempos afrouxados, caracterizada pela infidelidade no sentido macro da palavra – sem fidelidade religiosa, moral, relacional, ideológica, de conduta, etc..
Há uma exaltação sobre o fato da mente humana estar livre de amarrações sociais (e morais), dando à criatividade espaços mais que suficientes não mais para correr, mas para voar à alturas estratosféricas, livre e desimpedida. Talvez uma reação humana à falsa liberdade em que vivemos; uma fome pela real liberdade atingível somente no campo da imaginação. É uma hipótese.
Porém, fico a indagar onde isso nos levará. Se não há objetividade, então ouso responder que isso nos leva a canto algum, o que sinceramente acho perigoso. O perigo consiste em dar status de verdade a alguma ideia posta sem mensuração, sem crivo, simplesmente embasada na “livre expressão”. Talvez até o livre pensamento esteja preso às suas formas comunicativas. Por mais livre que seja, mas é necessário ser expressa de alguma forma, de modo que outros possam chegar ao conhecimento de sua existência, ao menos que queira ser guardado apenas para si, o que acho difícil principalmente em tempos hodiernos, nesta sociedade midiática.
Para os mais desavisados – para não dizer despreparados intelectualmente –, o simples uso dessa liberdade já ganha status de verdade. Ao se deparar com a “obra” – seja visual, auditiva ou outros meios sensoriais – muitos elegem para si como uma verdade incontestável, mesmo que não haja vínculo algum com sua história e cultura social (e afetiva). É o vazio em busca de outros vazios; um cego guiando outros cegos; um coxo ajudando outro a erguer-se. É o mundo da “periferialidade” e pouco – ou quase nenhum – aprofundamento. Deixa tudo no campo da sensibilidade! Aliás, talvez seja perigoso o vazio tentar preencher-se. Comida sólida (que preenche espaço) é intragável aos seres vazios. O vômito seria instantâneo.
Como dito nas primeiras linhas, se característica do homem moderno, ou se fuga da cansativa amarração da metodologia no trabalho, ou se atração à facilidade de se conceber – as hipóteses não são excludentes – não sei. Advogo apenas que o livre pensamento tem seus perigos, pois mensura-se de onde veio, mas não sabe-se para onde vai.
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