quinta-feira, 5 de fevereiro de 2015

POR QUÊ

Não, não vejo o porquê disso acontecer.
Porque se acontecer, qual o porquê de acontecer?
Acontecer por acontecer, sem um porquê? Não.
Preciso de um porquê para acontecer.


Não faz sentido acontecer se há um vazio de porquê.
Por que porquê e para quê acontecer?
Porque Acontecer com um porquê muda todo o parecer;
E o parecer responde o por que e dá vida ao porquê.


Mas se não acontecer, é melhor.
Melhor porque não gera por quês e anula o porquê.
E um porquê anulado elimina tantas confusões...
Mas cá para nós, certas confusões dão significados ao viver.
E o viver dá existência ao porquê e ao parecer.


Ou seria o porquê que dá vida ao parecer e ao viver?
Bom, isso eu não sei. E por quê?
Por que eu não sei...

ODE À APARÊNCIA

Não, não posso conceber como verdade só porque está escrita em letra e prosa. A beleza disfarça inverdades.


Cadê a essência? Ficamos com a forma? A forma só conquista a quem vive de aparência e não de essência.


A aparência destrói a essência, e a essência nem sempre constrói aparência. Pra quê? A essência não se preocupa com a aparência; mas a aparência se preocupa com a essência.


Na verdade, a aparência quer ter essência. Melhor, quer ser a própria essência. Tenta a aparência ser a essência, mas por falta de essência continua a viver como aparência. Mas não basta nada tentar...


Tenta, aparência! Vai que a tua intenta te faz aprender a ter essência. Afinal de contas, nada impede que a essência se preocupe com a aparência. Mesmo porque a essência tem uma aparência. Tem, mesmo que não aparenta.


Por que essência? Por que não ter uma aparência? Se não tem aparência como vamos reconhecer a essência?


Seria a essência inexistente por falta de aparência? Seria a aparência responsável pela existência? A essência, para ter existência, depende de uma aparência?


É aparência, vejo que tens sim essência.  A tua essência é pôr existência nas coisas que seriam inexistência se não houvesse aparência.


Já estou começando a te conceber como uma intermediadora entre a essência e a existência...


Poesia sem métrica, mas nem por isso deixa de ter essência e existência por falta de aparência. Produz na alma e razão a aquiescência. Eis, na poesia, a sua essência.


És, aparência, a aquiescência entre essência e existência. És também a condescendência entre a falta de essência e a existência. Traz à existência aquilo que não tem essência. E assim concedes vida ao que não tem existência.


E assim, por ti, passam a existir a essência e a própria existência.

O QUADRO

Se a verdade não se expõe, as vozes, os trejeitos e o silêncio sinalizam.
Sinalizam uma verdade escondida, camuflada de mentira, recheada de paradigmas;
Criadas para forjar veredas essencialmente construídas, mas existencialmente destruídas.


Destruídas pelo medo e pela sublevação de sentimentos egoístas que levam à morte interior.
Dores à bolor, que tergiversam os recônditos d’alma, e que nem os olhos conseguem expor.


Expor o desejo de recomeçar a trilha percorrida, enchê-la de paz, alegria, esperança, vida, harmonia... mas não pode parar. Nem mesmo pensar. Não, não agora... nem depois.


Não pode retornar para recomeçar. Recomeçar de uma maneira diferente. O que construí existencialmente solidificou aquilo que sou;Obdura os olhares e julgamentos alheios, e assim preso eu estou.


Preso como personagem pintado num quadro; Sem poder de (re)ação.  Sou o autor deste quadro: artista de mim mesmo.


Mas espere! Esse não sou eu! Sou mais do que esse quadro. Ei, olhem bem para mim, sou muito mais do que este emoldurado. Esses olhos expressos no quadro... não queria ser assim lembrado. Está tão limitado!


A paisagem atrás de mim é tão triste, não tem vida, cor... E agora? Alguém pode destruir este quadro? Queria ser de outra forma pintado! Não, não há! Estou exposto no museu do mundo, um museu caro, muito caro.

Mesmo que morra, para quem vislumbrar esse quadro,
É assim que serei para sempre lembrado.
E assim, vitimou mais um o pecado.

QUANDO ACONTECE...

O pior poderia acontecer a qualquer momento.

É, poderia. Não aconteceu porque não tinha de acontecer.

Não era hora de acontecer.

Não queria que acontecesse e não aconteceu, para meu alívio.

Se fosse para acontecer, teria acontecido.

Na hora que eu não queria, e provavelmente de um jeito que também não queria. Mas

aconteceria...

Fico a imaginar o que teria acontecido se tivesse acontecido.

Seria o acontecimento idealizado para não ter acontecido, nem consentido.

Consentir com o que não deveria acontecer? Quero eu consentir com o que deveria

acontecer... mas ele também não acontece.

Diacho! Só acontece o que não quero que aconteça...

 E só não acontece o que quero que não aconteça.

Assim já não sei mais onde estou: se inferno ou paraíso.

Porque quando acontece o que quero que aconteça, provavelmente vai ser do jeito que não
deveria acontecer;

E quando acontece do jeito que deveria acontecer, não vai acontecer na presença de quem
gostaria que assistisse o acontecido.

Sim, seria um acontecimento sonhado, idealizado, mas não realizado.

Seria o mesmo que nunca tivesse acontecido. Porque a existência do acontecimento está em
você, só você.

Não, não se surpreenda. A sua presença é quem faria o acontecimento.

Afinal, você não estando era o mesmo que não acontecer... o mesmo que não existir.

A bem da verdade, sem você o mundo nunca existiu.  Não ao menos para mim.

Porque quando vejo o acontecido, é só um isso e nada mais. Ele não passou a existir... em
mim.

Isso, falo por mim. Não por você. Queria eu falar por mim e por você.

Que o que acontecesse e passasse a existir em você fosse o mesmo para mim.

Assim não faria questão de falar de você e de mim.

Talvez assim, a realização do sonhado e idealizado teria sim suplantado o que aconteceu... mas
que nunca existiu.

E o pior nunca poderia acontecer a qualquer momento.

O LIVRE PENSAMENTO

Não sei se chamo de característica pessoal, ou fuga da processualidade do pensamento moderno na administração – provocada pelo cansaço à forma meticulosa, “amarrada”, metodológica que permeia o trabalho na modernidade –, ou mesmo a facilidade proporcionada pelo livre pensamento manifestada nas poesias sem métrica, artigos avulsos, livros de ficção sem fidelidade literária; enfim, uma coisa é certa e ninguém pode contrariar: o livre pensamento ganhou alturas significativas. 

Há quem diga que isso é fruto da pós-modernidade, de tempos afrouxados, caracterizada pela infidelidade no sentido macro da palavra – sem fidelidade religiosa, moral, relacional, ideológica, de conduta, etc..

Há uma exaltação sobre o fato da mente humana estar livre de amarrações sociais (e morais), dando à criatividade espaços mais que suficientes não mais para correr, mas para voar à alturas estratosféricas, livre e desimpedida. Talvez uma reação humana à falsa liberdade em que vivemos; uma fome pela real liberdade atingível somente no campo da imaginação. É uma hipótese.


Porém, fico a indagar onde isso nos levará. Se não há objetividade, então ouso responder que isso nos leva a canto algum, o que sinceramente acho perigoso. O perigo consiste em dar status de verdade a alguma ideia posta sem mensuração, sem crivo, simplesmente embasada na “livre expressão”. Talvez até o livre pensamento esteja preso às suas formas comunicativas. Por mais livre que seja, mas é necessário ser expressa de alguma forma, de modo que outros possam chegar ao conhecimento de sua existência, ao menos que queira ser guardado apenas para si, o que acho difícil principalmente em tempos hodiernos, nesta sociedade midiática. 

Para os mais desavisados – para não dizer despreparados intelectualmente –, o simples uso dessa liberdade já ganha status de verdade. Ao se deparar com a “obra” – seja visual, auditiva ou outros meios sensoriais – muitos elegem para si como uma verdade incontestável, mesmo que não haja vínculo algum com sua história e cultura social (e afetiva). É o vazio em busca de outros vazios; um cego guiando outros cegos; um coxo ajudando outro a erguer-se. É o mundo da “periferialidade” e pouco – ou quase nenhum – aprofundamento. Deixa tudo no campo da sensibilidade! Aliás, talvez seja perigoso o vazio tentar preencher-se. Comida sólida (que preenche espaço) é intragável aos seres vazios. O vômito seria instantâneo.

Como dito nas primeiras linhas, se característica do homem moderno, ou se fuga da cansativa amarração da metodologia no trabalho, ou se atração à facilidade de se conceber – as hipóteses não são excludentes – não sei. Advogo apenas que o livre pensamento tem seus perigos, pois mensura-se de onde veio, mas não sabe-se para onde vai.

domingo, 9 de dezembro de 2012

O Micro Poder

A grade pretensa do micropoder é pensar de si a onipotência e onipresença. A cada dia de meu ver viver, vejo esse câncer se proliferar por todo o corpo social e psicológico. Vejo-o se proliferar nas pequenas discussões, sejam eles nas relações verticais (professor-aluno-professor) ou horizontais (aluno-aluno) – muito embora, pela falsa modéstia, professores dirão que não estão no topo da verticalidade. A busca pelo poder se tornou algo insuportável.

Não mais existe a discussão em sentido puro, tendo as trocas de cosmovisões a respeito de determinado(s) assunto(s) como um fim, mas como um meio de se destilar o seu “saber-poder”. Pela nossa doença, invertemos a ordem. Desconhecer um fato, ou mesmo conhecê-lo superficialmente, tornou-se diminuição de status. Para não cairmos neste “perigo”, vale até se valer dos “malabarismos teóricos”, típico dos sofistas de outrora. Assim, tornamo-nos neo-sofistas.

Nosso compromisso não é mais com a verdade, e sim com nosso status perante os que nos rodeiam mais imediatamente. À guisa de Maquiavel, “mais vale o parecer ser, ao ser de fato”.

São por devaneios – para não ostentar “reflexão” – como este, que passo a entender, com uma pouquinha mais de propriedade, o por quê da sabedoria ser mais importante que o conhecimento – conforme pensou o rei Salomão. Conhecimento sem sabedoria é nocivo, pode levar à distorção da verdade, ou mesmo à bancarrota dela. Assim como “a sorte persegue os audazes”, a sabedoria persegue os humildes. Somente estes têm compromisso com a verdade; somente aqueles que dizem “não sei” – quando realmente não sabem – devem merecer nosso respeito e admiração.

Esse constante simulacro do “parecer saber” nos leva a pensar as inconstâncias da própria ciência. Como pode a ciência, que se baseia em fatos empíricos, mudar constantemente seus pareceres? A incompletude do método parece ser uma boa resposta. Mas o método em si não é fruto da própria ciência? Então como pode a própria ciência desconstruí-la? Isso nos faz pensar que a Ciência, per si, não é detentora da verdade.

E por quê? Porque a sabedoria, ao longo dos tempos, não acompanhou a ciência. No mundo acadêmico, com sua extensa ramificação de ciências, há uma guerra constante pela detenção de certas verdades. Vemos a já folclórica briga entre as ciências humanas e sociais pela melhor compreensão de alguma verdade. Pior ainda para as ciências frias, por se tratar de verdades exatas e mensuráveis (ao contrário do grande relativismo que permeia homens e sociedades, escopo de pesquisa daquelas ciências)!

Tudo isso, hoje, não passa de um óbvio ululante. Mas em um passado não muito distante, não se percebiam em “pé de guerra”. Hoje já podemos contemplar a mudança de discurso na ciência. Depois de muito apanhar, aprenderam que podem chegar a alguma possibilidade e não certezas (ou verdades). Que bom!

sexta-feira, 7 de setembro de 2012

Resposta ao Discurso pró-diversidade sexual

Comentário que fiz ao artigo "'Tratamento' é uma forma sim de se praticar homofobia, diz especialista" publicado no blog http://blogsdagazetaweb.com.br/diversidade/ de Nildo Correia.

 Não creio que o tratamento seja, em si, homofóbico. Até porque, os homossexuais que são tratados, não o são impositivamente. Aliás, não existe tratamento psicológico impositivo; de certo, não haveria resultado.

 Com o perdão da proposital redundância, mas, se alguns homossexuais procuram tratamento, não apenas fazem espontaneamente, como também fazem porque acham que algo está errado com a sua opção sexual.

Assim como um indivíduo é livre para escolher se relacionar sexualmente com pessoas do mesmo sexo, estes (os que buscam tratamento) também são livres para escolherem mudar o rumo de suas vidas, bem como escolher o método que lhe propiciará a mudança almejada. Dizer que "Os homossexuais que buscam ‘ajuda’ por serem solitários e infelizes, só são assim porque sofrem muito preconceito social e são excluídos" - conforme Maria Aparecida - é pretender colocar palavras nas bocas dos que buscam tratamento.

Há muito mais do que isso, motivos mais relevantes. É preciso ouvi-los antes de mensurar às escuras. Aplaudo os discursos de quem relativiza o "normal" construído socialmente; mas não o biologicamente. As condições de "homem" e "mulher" são determinadas naturalmente, sem precisar das construções das representações sociais para existirem. A determinação biológica dos sexos precede as opiniões; e a opinião construída posteriormente de modo algum tem poder de mudar o que já foi posto, estabelecido (naturalmente). Em outras palavras, as determinações naturais não podem ser subjetivadas, até porque pertencem a campos distintos, a saber: objetivo e subjetivo.